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06/01/2026

Mobilidade urbana no Brasil em 2026

Francisco Christovam

 

No congresso da Associação Nacional de Transportes Públicos – Arena ANTP 2025 –, realizado em outubro do ano passado, especialistas do setor como Ogeny Pedro Maia Neto, presidente do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana, Pedro Henrique de Moraes Marques, chefe do Departamento de Mobilidade Urbana do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e Jurandir Fernandes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e vice-presidente honorário da União Internacional de Transportes Públicos (UITP), debateram as perspectivas e as tendências para o transporte público coletivo de passageiros para 2026.

 

Com o objetivo de se realizar uma análise conjuntural e não uma apreciação muito detalhada, por modos ou por projetos, os três painelistas destacaram que o próximo ano será estratégico para o desenvolvimento do setor, em razão de oportunidades para inovação, modernização e de um ambiente regulatório mais maduro, além de um novo ciclo de investimentos. Entretanto, persistem desafios estruturais de financiamento e uma necessidade urgente de adaptação às demandas sociais e ambientais, exigindo dos stakeholders uma análise preditiva e estratégica para navegar entre tecnologia, economia e política.

 

O transporte coletivo é reconhecido como serviço público essencial e fundamental para a organização urbana e para a qualidade de vida nas cidades. Contudo, a capacidade do setor de cumprir sua função está diretamente ligada ao preparo dos órgãos gestores e à existência de fontes de recursos, para investimentos e custeio, necessários à prestação dos serviços. O contexto eleitoral de 2026 torna ainda mais relevante a definição de estratégias para superar desafios e aproveitar oportunidades, influenciando o futuro da mobilidade urbana nas próximas décadas.

 

 

Os aspectos jurídico-legais devem ser transformados pelo Marco Legal do Transporte Público Coletivo, em fase final de discussão no Congresso Nacional. Sua implementação, prevista para 2026, trará exigências operacionais mais rigorosas e um ambiente de fiscalização também mais fortalecido. Entre os avanços, destaca-se a diversificação dos modelos de contratação, como parcerias público-privadas (PPPs) e novos tipos de contratos de concessão, permitindo dissociar parte do risco tarifário do risco do investimento em infraestrutura e no material rodante.

 

O marco legal também impõe novos padrões de qualidade e acessibilidade, incentivando os operadores a renovarem frotas e aprimorar a infraestrutura, com vistas a garantir conformidade regulatória. A nova base jurídica deverá estabelecer diretrizes para um transporte mais moderno, acessível e sustentável, alinhando o setor com as demandas sociais e ambientais emergentes. Ogeny Maia destacou que o marco legal deverá afiançar o transporte público como um direito social e um serviço essencial, promovendo maior segurança jurídica para os contratos, incentivando a sustentabilidade, criando regras claras de financiamento e melhorando a qualidade dos serviços prestados à população.

 

O aumento dos investimentos públicos e privados está sendo promovido por uma estratégia federal coordenada, com destaque para o papel do BNDES como indutor de investimentos. O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), desenvolvido em parceria com o Ministério das Cidades, mapeou cerca de 200 projetos, de média e alta capacidades, em 21 regiões metropolitanas, totalizando quase R$ 450 bilhões de investimentos no setor e oferecendo previsibilidade ao mercado para novos tipos de contratação.

 

A predominância de projetos em regiões metropolitanas reforça a necessidade de coordenação entre as diferentes esferas de governo. O investimento federal estimula estados e municípios a fortalecerem ou a criarem Autoridades Metropolitanas, essenciais para uma integração modal e tarifária módica e eficiente. Superar as dificuldades próprias de uma gestão metropolitana é condição fundamental para avançar na integração dos sistemas de transporte coletivo. Pedro Henrique ressaltou a importância de uma boa governança das empresas operadoras de transportes para a concessão de financiamentos, tanto para investimentos em infraestrutura como para aquisição de frota.

 

O uso de novas tecnologias será o principal catalisador de eficiência, sustentabilidade e atratividade do transporte coletivo em 2026. A coleta massiva de dados possibilita a otimização de rotas e de horários, enquanto a manutenção preditiva, baseada em big data, pode reduzir custos e aumentar a confiabilidade operacional. Exemplos como o BRT de Goiânia e o BRT de Sorocaba ilustram o sucesso da aplicação de modernos Intelligent Transport Systems (ITS) na operação e na redução de custos operacionais.

 

A inteligência artificial (IA), incorporada não apenas à gestão de frotas, mas também para aprimorar a experiência do passageiro, deverá oferecer previsões mais precisas e integração entre os diferentes modais, incluindo micromobilidade (bicicletas e patinetes). O objetivo é criar uma experiência fluida de “mobilidade como serviço”, garantindo acesso facilitado e integrado a todas as formas de transporte urbano.

 

Na agenda ambiental, a eletrificação da frota é apontada como vetor de sustentabilidade. Porém, em 2026, o principal desafio a enfrentar será a infraestrutura de recarga, mais do que a aquisição, propriamente dita, dos veículos elétricos. Atualmente, menos de 1% da frota de transporte coletivo é movida a tração elétrica, e a expansão depende de investimentos robustos na adequação das redes de energia locais. A utilização de outras tecnologias, como o ônibus movido a biometano, amplia a capacidade de substituição da frota diesel por veículos menos poluentes. O foco dessa substituição estará na estruturação de projetos de infraestrutura – viária e de abastecimento –, fundamentais para a transição energética do setor.

 

O investimento em tecnologia é também uma aposta na sustentabilidade econômica do setor, que enfrenta pressão para a redução de custos e para a concessão de subsídios aos transportes de passageiros. A eficiência sistêmica, promovida pela introdução de novas tecnologias – nas áreas da manutenção dos veículos, na programação da operação das linhas e na otimização de rotas –, é pré-requisito para legitimar o aumento da eficiência operacional e o redimensionamento de recursos para ampliar subsídios e garantir tarifas módicas.

 

O transporte coletivo vem operando com custos superiores à capacidade de pagamento dos usuários, enquanto limitações fiscais dos entes federativos dificultam a concessão de subsídio, resultando em reajustes tarifários ou cortes no atendimento. Isso prejudica o acesso universal da população aos serviços e compromete a função social do sistema.

 

A tarifa zero (TZ), implementada em mais de 170 municípios (a maioria de pequeno e médio portes), divide opiniões e será tema central das discussões em 2026. Estudos apontam para o aumento expressivo da demanda e de benefícios sociais, mas o custo operacional, em cidades de médio e grande portes, é o principal entrave. Nesse sentido, Jurandir Fernandes comentou que “a TZ deixou de ser uma mera ideia para se tornar um objeto de estudo que demanda rigor científico e pragmatismo. O desafio atual não é apenas celebrar suas conquistas nas pequenas cidades, mas garantir que as iniciativas já em curso se sustentem e que as futuras sejam implementadas com a devida base de evidências e planejamento, para não se tornarem um fardo para as cidades e seus cidadãos”.

 

Em ano eleitoral, com eleições majoritárias (presidente, governadores e senadores) e proporcionais (deputados federais, estaduais e distritais), certamente, o financiamento do transporte coletivo estará no centro das discussões. Propostas como a adoção de um Sistema Único de Mobilidade (SUM), inspirado no Sistema Único de Saúde (SUS) e previsto na Proposta de Emenda à Constituição – PEC 25/2023, sugerem custeio compartilhado entre União, estados e municípios, oferecendo alternativa para o dilema das receitas extraordinárias nos orçamentos municipais. A viabilização da tarifa zero em grandes cidades depende da criação de novas fontes de receita ligadas à mobilidade urbana.

 

A gestão metropolitana fragilizada é outro obstáculo e fortalecer autoridades metropolitanas – formais ou não – será essencial para integrar redes e tarifas. Promessas populares, como implementação imediata da tarifa zero, podem comprometer investimentos de longo prazo, se não vierem acompanhadas de planejamento e de fontes de custeio adequadas.

 

A análise desses cenários leva à conclusão de que o ano de 2026 trará oportunidades para inovação e modernização do setor, mas o progresso depende da convergência entre tecnologia, investimentos e ação política, transformando demandas sociais em compromissos duradouros. É fundamental que gestores públicos, operadores e investidores adotem uma visão estratégica e colaborativa para superar obstáculos e promover um transporte coletivo de qualidade, acessível e sustentável para todos.

 


Francisco Christovam é diretor-presidente (CEO) da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), vice-presidente da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado de São Paulo (FETPESP) e da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), bem como membro do Conselho Diretor da Confederação Nacional do Transporte (CNT) e membro do Conselho Deliberativo do Instituto de Engenharia

 

 

Imagem: Divulgação | Foto Francisco Christovam: Edi Pereira/Setpesp

 

 

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