Carlos Magno Corrêa Dias
Muitos baseiam-se na premissa, cientificamente incorreta, de que os seres humanos utilizam apenas 10% da capacidade total do cérebro. Mais insana ainda é a ideia de que se uma pessoa pudesse desbloquear (progressiva e totalmente) o uso de seu potencial cerebral, poderia ganhar habilidades sobre-humanas. Ficção, apenas ficção.
O “mito dos dez por cento” é tomado pensando-se que se fosse possível acessar mais potenciais do cérebro o ser humano poderia adquirir percentuais cada vez maiores de sua capacidade cerebral, o que possibilitaria uma “progressão de habilidades”, tais como: maior capacidade intelectual e de aprendizado, controle sobre o próprio corpo, desenvolvimento de habilidades de psicocinese (ou de telecinese), bem como aquisição do controle sobre o tempo e o espaço.
Assim, supondo que o ser humano poderia obter “cem por cento de sua capacidade cerebral”, passaria a transcender a própria humanidade, tornando-se pura consciência, onisciente e onipresente, capaz de manipular a matéria e o tempo.
Erroneamente, então, pensa-se que usando o conceito de “aumento do uso cerebral” como um catalisador se poderia obter uma “evolução e a transcendência” da existência humana; o que se diga, categoricamente, já foi desmentido pela neurociência.
Os neurocientistas afirmam, com base em exames de neuroimagem (como a Ressonância Magnética Funcional - fMRI), que todas as regiões do cérebro dos seres humanos estão ativas (algumas com mais intensidade que outras) o tempo todo, mesmo durante o sono ou desenvolvendo em tarefas bem simples e/ou corriqueiras.
Imagem: Freepik / Gerada por IA
A fMRI (ou RMf) consolidou-se como uma das principais ferramentas da neurociência moderna, ao permitir o mapeamento da atividade cerebral de forma dinâmica e não invasiva. Diferentemente da Ressonância Magnética (RM) convencional, que foca na estrutura anatômica, a fMRI monitora o funcionamento do cérebro em tempo real através do sinal BOLD (Blood Oxygenation Level-Dependent). Esse fenômeno baseia-se na premissa de que neurônios ativos demandam maior aporte de oxigênio e glicose, desencadeando uma resposta hemodinâmica que altera as propriedades magnéticas locais do sangue, as quais são captadas pelo equipamento.
No âmbito clínico, os neurocirurgiões identificam com precisão as áreas responsáveis por funções vitais como fala e motricidade, antes de procedimentos complexos para remoção de tumores ou focos epilépticos, por exemplo. Além da aplicação cirúrgica, a fMRI é um pilar da pesquisa científica, sendo utilizada para investigar o impacto de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson, e para compreender a organização das redes cognitivas. A alta resolução espacial e a ausência de radiação ionizante tornam a RMf uma ferramenta versátil e segura para o estudo aprofundado da mente humana e suas patologias.
Não faria sentido evolutivo para o cérebro humano, que gasta energia significativa do organismo para funcionar, enfatize-se, ter algumas de suas áreas totalmente inativas (os supostos 90%). É de se notar, também, que lesões em praticamente qualquer área do cérebro resultam em perda de função ou déficits percebíveis, o que reforça, também, que todas as regiões são importantes e estão em pleno funcionamento (“uso”) e não apenas aqueles “poucos dez por cento” aventados.
É uma grande tolice pensar que o uso de toda a capacidade cerebral (e ao mesmo tempo) conferisse telecinesia (ou telecinese, a capacidade de mover, manipular ou influenciar objetos físicos apenas com o poder da mente, sem qualquer contato físico ou uso de forças mecânicas conhecidas); controle do tempo/espaço; absorção instantânea de conhecimento e transcendência da forma física. Afirmar tais possibilidades é pura fantasia. Um suposto aumento do uso do cérebro humano não gerará superpoderes. Pensar de forma semelhante é viver no mundo da ficção.
A ciência seguidamente afirma (comprova) que o treinamento cognitivo e o aprendizado garantem a criação de novas conexões neurais (neuroplasticidade), o que pode aumentar a eficiência cerebral e melhorar habilidades existentes, como memória e raciocínio. Mas fenômenos como a telecinesia ou a telepatia (suposta capacidade de “mover” informações de uma mente para outra) não são comprovados cientificamente. Pensar que a mente humana possa se transformar em uma “consciência pura e onipresente” é, na melhor das hipóteses, um delírio ou especulação irresponsável, dado não existir quaisquer possibilidades (cientificamente falando). Não há base na biologia e/ou na física (pelo menos até hoje conhecida).
Nada além de um mito a crença de que se o ser humano utilizasse mais percentuais de seu cérebro, poderia transcender e fazer parte efetiva como meio de toda a evolução tecnológica e científica desenvolvendo poderes que não possui.
Todavia, todas as regiões do cérebro humano estão ativas em alguma medida (ou seja, 100% funcionando). Embora, deveria ser claro, apesar de todas as áreas serem utilizadas, elas não estão ativadas em sua capacidade máxima ao mesmo tempo, o tempo todo. O cérebro humano opera com eficiência (100%) as regiões necessárias para, a cada tempo, realizar uma determinada ocupação como falar, ter raiva, mover o braço, chorar, memorizar, gritar, dentre outras tantas tarefas.
A neuroplasticidade (a capacidade de o cérebro se adaptar e melhorar) mostra cientificamente que o cérebro humano tem uma capacidade incrível de se reestruturar e formar novas conexões neurais em resposta ao aprendizado, à experiência e ao treinamento. Pessoas podem melhorar significativamente suas habilidades cognitivas potencialmente (memória, aprendizado de línguas, raciocínio) por intermédio da prática e do estímulo mental constante e contínuo.
Mas se é potencial (se as pessoas podem melhorar), há, certamente, um problema, dado que “estar em potência”, no sentido de “vir a ser”, pode nunca acontecer. A distinção entre ato (o que é) e potência (o que pode vir a ser) deve ser tomada de forma categórica.
Todavia, para responder de forma determinante, mantendo-se a perspectiva da neurociência (e não da ficção científica), a resposta categórica é que o ser humano já usa 100% de seu cérebro no sentido de que todas as suas partes estão ativas e têm uma função. Claro, também, que o ser humano não usa 100% de seu potencial cerebral (potência) no sentido de máxima eficiência em todas as habilidades que pode desenvolver (uma vez que, repita-se, não usa tudo ao mesmo tempo).
Todas as regiões do cérebro, neurônios e células gliais (que compõem o sistema nervoso junto com os neurônios e que fazem o cérebro funcionar) estão funcionais e ativas em diferentes momentos em cada indivíduo “clinicamente normal”. Nenhuma área do cérebro normal está dormente ou é inútil. Em “ato” o ser humano usa 100% de seu cérebro.
O cérebro humano pode sim se reconfigurar e aprender sempre novas habilidades, infinitamente, não operando em sua capacidade máxima de todas as habilidades ao mesmo tempo. Em “potência” sempre haverá margem para aprimoramento e aumento de conexões neurais (é o que garante a neuroplasticidade).
Portanto, cientificamente, o cérebro está 100% ativo; mas seu potencial de aprendizado e eficiência (a potência de novas conexões) é vasto e não se esgota jamais (a menos, é claro, que exista algum dano na estrutura).
Todavia, é certo também que a mente humana tem sim limitações e não consegue resolver todos os problemas (mesmo aqueles emergenciais) que a humanidade enfrenta. Mesmo que fosse considerado ser uma deficiência a falha em utilizar o potencial máximo de eficiência (a potência) do cérebro em todas as habilidades cognitivas (ao mesmo tempo), a neurociência faz questão de apontar que a solução não está em desbloquear áreas supostamente dormentes, mas sim em otimizar e reconfigurar as conexões neurais existentes por intermédio da citada neuroplasticidade.
As principais estratégias para resolver a sugerida “deficiência” se resumiria em criar um ambiente físico e mental que estimulasse a formação e o fortalecimento das sinapses a fim de otimizar o potencial cerebral (a potência). Atividades bem difundidas para tanto são: (a) estimular o aprendizado contínuo enfatizando no cognitivo; (b) aprender novas habilidades; enfrentar seguidos desafios cognitivos; variar em ato contínuo a rotina do dia a dia.
É pensado que a saúde cerebral depende intrinsecamente da saúde física do cérebro, sendo fundamentada em: (a) atividade aeróbica regular (caminhada, corrida, natação) e treino de força; (b) sono de qualidade: dormir a quantidade de horas adequada e ter uma boa “higiene do sono”; (c) manter uma dieta rica em ômega-3 (peixes gordurosos, nozes), antioxidantes (frutas vermelhas) e vitaminas do complexo B.
Ressalte-se, entretanto, que o estresse crônico é um dos maiores inibidores do potencial cerebral, pois inunda o sistema com cortisol (hormônio esteroide crucial conhecido como hormônio do estresse, o qual gerencia a resposta do corpo a situações de perigo e regula o metabolismo, a pressão arterial, a função imunológica, o ciclo sono-vigília e a inflamação) afetando a memória e a função do córtex pré-frontal.
É bem recomendado, também, para a promoção da saúde cerebral, servir-se de práticas que fortalecem o controle atencional e a capacidade de inibir distrações, melhorando o foco e a produtividade. São bons os métodos que permitem gerenciar o tempo e garantir pausas estratégicas, bem como interagir com outras pessoas e manter relacionamentos saudáveis que venham a estimular áreas cerebrais relacionadas à empatia e ao processamento emocional e cognitivo.
Claro que não existe mágica para otimizar o potencial (a potência) do cérebro. Todavia, uma abordagem integrada que combine desafio cognitivo constante com cuidados à saúde física e mental é um dos caminhos mais promissores e que mostra resultados consideráveis.
Esquecendo-se quaisquer suposições centradas em ficção científica que o cérebro humano possa ser mais desenvolvido e concentrando-se puramente na biologia humana e na neurociência, a problemática de usar (ou não) a capacidade existente pode ser abordada sob dois pontos de vista distintos, ambos aceitos pela ciência: (I) a posição da neurociência que afirma que o problema de usar a capacidade cerebral não existe, porque o cérebro já é utilizado em sua totalidade (100% das suas partes); e (II) a posição sobre o potencial de conexão (potência/neuroplasticidade) que afirma que a capacidade existente do cérebro se refere ao quão eficientes e numerosos são os caminhos neurais (sinapses) existentes.
De qualquer forma, a neurociência não vê a questão da capacidade cerebral como um "problema" ou um "objetivo a ser alcançado", pois, sabido, o cérebro humano já está 100% ativo. A verdadeira problemática é como otimizar o 100% do potencial de eficiência e plasticidade.
Como se observa, insistentemente, o cérebro humano não é como um computador que tem seu limite atrelado aos 100% do disco rígido. O cérebro dos homens é um sistema dinâmico. Em qualquer momento, a quantidade de neurônios que estão disparando ativamente pode ser otimizada para execução de determinada tarefa. Se todos os neurônios de todas as regiões (visão, movimento, linguagem, memória, locomoção, emoção, dentre outras) disparassem com intensidade máxima ao mesmo tempo, o resultado não seria superinteligência ou superpoderes, mas sim convulsões, caos funcional ou até mesmo danos cerebrais (alguns irreversíveis) que poderiam levar à morte, devido à sobrecarga energética decorrente. Coordenar a atividade das partes de forma mais eficiente para otimizar um resultado específico é, na verdade, a questão a considerar.
O cérebro humano tem um potencial quase ilimitado para criar conexões (neuroplasticidade) e fortalecer as existentes através do aprendizado. A ciência admite que a maioria das pessoas não explora esse potencial ao máximo, seja por falta de estímulo, estilo de vida inadequado (falhas no sono, na dieta) ou ausência de novos desafios. A suposta deficiência não é uma falha no cérebro físico, mas uma falha das conexões não otimizadas. A meta biológica é aprimorar as redes para que o cérebro se torne mais resistente ao declínio e use menos energia e tempo para realizar tarefas complexas. A eficiência do cérebro está na seletividade da atividade, não na saturação.
Todavia, a humanidade (constituída dos cérebros humanos 100% desenvolvidos) ainda não sabe como conquistar o espaço ou, pelo menos, não tem um local para morar (viver) após a Terra se tornar um lugar inabitável (o que, cientificamente, já é sabido há algum tempo, vai acontecer inevitavelmente).
Fatalmente, a Terra deixará de ser habitável ou a curto/médio prazo devido às mudanças climáticas (com riscos significativos já proximamente em 2070 ou 2100 para certas regiões do globo terrestre) ou em um futuro mais distante em decorrência de fatores astronômicos/cósmicos quando o Sol se tornará tão quente que vai, efetivamente, queimar tudo que existe na Terra, tornando o planeta estéril para a vida como se conhece atualmente.
Não se trata de especulação. Não é uma teoria infundada. É comprovado cientificamente. Não é o caso de “se a Terra vai acabar”, e sim “quando a Terra deixará de ser habitável para os humanos”. Contudo, em pleno século XXI, ainda a humanidade não tem para onde escapar se algo catastrófico acontecer com o planeta onde habita desde sempre.
Semelhante provocação toca em feridas abertas da ciência, tecnologias e da própria natureza humana. Embora se tenha avançado muito desde o primeiro passo na Lua, a colonização espacial é um desafio de magnitude superior a qualquer criação ou invenção que a humanidade já tenha feito. Então, não há como ser brando nas observações: os homens com seus cérebros 100% funcionando não têm o necessário para a humanidade ser uma espécie multiplanetária.
É interessante ressaltar (sempre) o problema das distâncias e da física, uma vez que o universo é vasto de uma forma que a mente humana mal consegue processar; Marte, por exemplo, é logo ali, mas é longe, e mesmo sendo “vizinho mais viável” leva de seis a nove meses para ser alcançado com a tecnologia atual. Se, entretanto, se buscar uma “segunda Terra” fora do sistema solar, fala-se de distâncias que levariam dezenas de milhares de anos para serem percorridas com foguetes de propulsão química. Sem uma física e engenharias novas que permitem, por exemplo, criar motores de dobra ou buracos de minhoca, que hoje são teóricos, a humanidade seguirá presa à “vizinhança” imediata.
Outra questão determinante trata-se dos impedimentos decorrentes da fragilidade biológica do corpo humano que não evoluiu (especificamente) para viver no espaço sideral. O espaço sideral é extremamente hostil para o corpo humano: (a) fora do campo magnético da Terra, a radiação aumenta drasticamente o risco de câncer e danos genéticos; (b) a ausência de gravidade causa perda de densidade óssea, atrofia muscular e problemas de visão; e, (c) o isolamento extremo em ambientes minúsculos por anos a fio é um desafio mental que ainda não se sabe se o ser humano comum consegue suportar sem colapsar.
Mas não basta chegar em outro planeta; é preciso sobreviver lá. E até o presente momento o homem não conseguiu criar um sistema de suporte à vida 100% fechado. Na Terra, a natureza recicla oxigênio, água e resíduos de graça. Em uma colônia espacial, qualquer falha mecânica no sistema de reciclagem de ar significa a morte de todos em minutos. Ainda não se tem domínio sobre a criação de biosferas artificiais autossustentáveis a longo prazo fora da Terra.
Certamente, muitos são os desafios envolvidos na edificação de um “Plano B” para a humanidade seguir vivendo no cosmos. No entanto, o custo econômico e a vontade política envolvidos para a humanidade “mudar para outro planeta” são sérias agravantes impeditivas, dado que não existe, atualmente, um país ou empresa capaz de arcar sozinho com tudo o quanto seja exigido.
Enquanto houver problemas na Terra tipo fome, guerras, mudanças climáticas, epidemias, dentre outros tão ou mais graves, pensar em investimentos massivos e globais para ciar as condições de saída de todos os humanos da Terra é algo bem problemático e muito menos politicamente justificável. Atualmente, considera-se o empenho de dinheiro para explorar devidamente o espaço como um gasto, não um lucro. Há quem defenda que enquanto a mineração de asteroides ou o turismo espacial não se tornem extremamente rentáveis, a exploração do espaço com vistas a gerar o tal “Plano B” para os terráqueos sobreviverem é apenas um sonho longe de ser alcançado.
Existem, também, muitos cientistas que argumentam, simplesmente, que a ideia de descobrir onde viver após a Terra se tornar inabitável é perigosa, uma vez que não se trata tanto de não se saber como ir e habitar outros mundos, mas o problema maior é que para além, muito além, da execução técnica, de questões biológica e gastos financeiros, depara-se com a fraca maturidade da humanidade como civilização, uma vez que seguidamente o homem sobrepuja o próprio homem.
Assim, a transição do mito da quantidade (uso de 100% de área cerebral) para a realidade da qualidade (eficiência sináptica) pode ajudar a responder à pergunta sobre por que ainda os humanos não conquistaram o espaço.
Por outro lado, se o cérebro humano funciona melhor servindo-se da seletividade e eficiência, a falha da humanidade em conquistar o espaço pode ser vista não como uma ausência de inteligência bruta, mas como uma questão de alocação de recursos e prioridades adaptativas.
É fato que como o cérebro evita disparar todos os neurônios para não causar um colapso energético, a humanidade, como um organismo coletivo, tende a focar sua energia (recursos, conhecimento, atenção) em problemas imediatos de sobrevivência na própria Terra. O esforço para colonizar o espaço exigiria um disparo de energia coletiva enorme, tal que a estrutura social e econômica da humanidade ainda não aprendeu a coordenar sem gerar caos interno e multifacetado. Poder-se-ia afirmar que o modo de sobrevivência da humanidade está visando economia de energia para se manter atualmente e sequer pensar num futuro tão distante quanto o fim da Terra para os humanos viverem.
Atualmente, ir ao espaço é caro demais em termos de energia e conhecimento. Ainda a humanidade está numa fase de aprendizado pesado, onde cada passo exige um esforço colossal, muito além das possibilidades (e/ou da vontade coletiva). Não se criam ainda as sinapses tecnológicas (infraestruturas espaciais autossuficientes) que tornariam a tarefa de conquistar o espaço fluida e eficiente.
O cérebro humano é um sistema dinâmico bem otimizado para viver apenas na Terra. A neurobiologia do homem está conectada para responder a estímulos do planeta Terra (ciclo circadiano, gravidade, interações sociais específicas). Expandir para o espaço sideral exigirá que a plasticidade cerebral do ser humano se adapte a ambientes onde os estímulos são radicalmente diferentes, o que pode levar gerações (muitas e muitas) de aprendizado e exposição.
A eficiência está na seletividade. Talvez o motivo de o ser humano não estar vivendo em outros mundos seja porque ainda não selecionou os caminhos mais eficientes para tanto. Pode-se dizer, sem muita controvérsia, que, atualmente, a exploração espacial do homem é apenas um ruído, centrada em tentativas e erros, sem qualquer foco efetivo comum da humanidade. A inteligência da civilização humana para questões voltadas para a conquista do espaço ainda não atingiu o estado em que o cérebro realizará tarefas complexas com o mínimo de esforço.
Então o problema de não existirem as condições para se conquistar outros “mundos” não é que falte cérebro ou espaço físico neural ao homem. O grande problema é que ainda o ser humano não formou as redes de conexão corretas necessárias. Sempre há de se ressaltar que seja na ciência, na logística ou na cooperação global, o estabelecimento das condições para tornar a vida multiplanetária uma função “automatizada” e eficiente está muito distante de ser efetivada.
Todavia, vencido o principal obstáculo em referência e com o auxílio da inteligência artificial (IA) será possível transformar o potencial de conexão descrito em realidade tecnológica, de forma que o homem possa, enfim, edificar soluções para que a humanidade venha viver em outros locais no cosmos, além da Terra.
Sim, a IA pode atuar exatamente como um extensor de sinapses para a humanidade, possibilitando que a eficiência cerebral não venha de se utilizar mais cérebro, mas de otimizar as conexões (sinapses) que vão se formando diante dos problemas a resolver de forma compartilhada.
É importante salientar que IA não substituirá o cérebro humano, mas acelerará a criação de caminhos que os homens, sozinhos, levariam séculos (ou mesmo, milênios) para consolidar. O cérebro humano tem limites biológicos de processamento. A IA consegue analisar bilhões de combinações químicas e físicas em segundos.
Para viver em Marte ou em qualquer outro lugar do universo, a humanidade necessitará, por exemplo, de materiais que bloqueiem radiação e sejam leves. A IA já está descobrindo novas ligas metálicas e polímeros que poderão ser utilizados e que os humanos nunca testariam por falta de tempo ou necessidade, ou conhecimento.
A IA poderá simular trilhões de trajetórias orbitais e novos tipos de motores (como os de propulsão nuclear ou iônica), encontrando a eficiência máxima exigida para economizar combustível e, principalmente, tempo.
Além do mais, como o cérebro humano busca sempre eficiência energética, a IA poderá ajudar a manter o “hardware” humano (o corpo humano) vivo no espaço, criando a bordo dos veículos de transporte condições de monitorar a neuroplasticidade e a saúde dos astronautas em tempo real, prevendo doenças antes dos sintomas aparecerem, ou ajudar a projetar modificações genéticas (ou dietas sintéticas específicas) que tornem o corpo humano mais resistente à radiação e à perda óssea, por exemplo; porquanto, manter um ecossistema fechado de sobrevivência (ar, água, comida) exige um equilíbrio perfeito e a IA poderá ser programada para tanto.
Como naturalmente o cérebro humano tem dificuldade em monitorar milhares de variáveis simultâneas sem fadiga, a IA poderá gerenciar uma colônia inteira, ajustando níveis de oxigênio, luz para plantações e reciclagem de resíduos com uma precisão que evitará, certamente, o caos funcional que se aventa no caso de uma sobrecarga cerebral.
No futuro (muito próximo) o cérebro humano entrará com a seletividade e o propósito (decidir “o porquê de ir”) e a IA fornecerá a otimização das conexões (descobrirá “como ir e permanecer de forma eficiente”).
É suposto que a IA, como não tem os vieses cognitivos que limitam o cérebro humano, poderá ser capaz de determinar a solução para se viver em Marte, cuja lógica leve em conta até mesmo a limitante biologia humana a qual é condicionada pelo viver do homem exclusivamente na Terra. Mas a IA poderá encontrar as conexões não óbvias que poderão facilitar a vida do homem no espaço.
É aceito, também, que IA possibilitará à humanidade saltar do uso de 100% da capacidade do cérebro individual para o uso de 100% da capacidade intelectual coletiva e tecnológica, dado se admitir que a IA é a ferramenta que permitirá finalmente organizar o caos de informações que se tem atualmente em um plano robusto e lógico de execução viável.
Entretanto, para cada nova solução, podem surgir inúmeras outras questões sequer aventadas ou envolvendo desafios muito mais difíceis. E, talvez, nessa linha, a mais determinante das questões seria o posicionamento e implicações decorrentes da humanidade aceitar ou não ser guiada por algoritmos de IA na construção de uma nova civilização humana.
Está se aventando que o medo de perder o controle do próprio “destino biológico” para a IA é um obstáculo maior que a tecnologia em si. Então, pensa-se sim que será uma questão bem difícil a possibilidade de a humanidade ser comandada por algoritmos de IA na construção de uma nova civilização. A história humana é repleta de conflitos motivados por conceitos que, sob uma perspectiva temporal ou biológica, são passageiros (efêmeros), mas que no calor da existência social tornam-se causas de morte de um número absurdo de seres humanos.
Além do poder e do domínio territorial, motivo de inúmeras guerras e milhões de mortes, outras efemérides movem, frequentemente, a violência entre os homens. Muitos conflitos surgem do desejo particular de ser lembrado ou de garantir que o nome de uma linhagem, dinastia ou nação perdure. Mesmo que o paradoxo perdure (o “nome” sobreviva, mas a vida de quem lutou por ele seja extinta), os homens se digladiam e se matam por tal efeméride ao longo da história.
A busca pela glória e a defesa da honra são outras efemérides que impedem a humanidade de atingir evolução. De um lado, luta-se pela ideia de que morrer por uma causa confere uma vida eterna na memória coletiva; de outro, confundindo com dignidade, mata-se ou se morre pela honra social que nada mais é senão uma construção frágil para evitar a “mancha” da humilhação.
Efetivamente, o controle sobre a narrativa da verdade é uma das maiores causas de derramamento de sangue. O homem mata para manter a hegemonia de uma ideia, ignorando que juízos evoluem ou desaparecem com o tempo. Vive-se para manter a ilusão de uma verdade absoluta e imutável. Pensa-se que a sobrevivência de um grupo depende da aniquilação cultural ou física do outro. Ao longo dos séculos se repete o mesmo absurdo.
Também deve-se observar que diferentemente da sobrevivência básica, o acúmulo de riqueza além do necessário é uma efeméride voltada ao status e que causa inúmeros prejuízos â humanidade. Mata-se pelo controle de recursos que garantem não apenas a vida, mas a posição na hierarquia social.
Outra efeméride diz respeito ao insano desejo de controlar o comportamento, o corpo e a vida privada do próximo, numa tentativa de estender o domínio para dentro da consciência individual; o que é, de todo, impossível. As grandes perdas envolvidas são gigantescas.
Embora existam, com o passar dos tempos, evoluções tecnológicas marcantes e determinantes, os conflitos gerados pela imposição de códigos morais ou estéticos (também mutáveis com o tempo) seguem tratados como se fossem leis universais, promovendo diferentes e graves conflitos entre os homens ditos racionais.
Mas, enquanto se mantiver a tentativa fútil de controlar variáveis que são, por natureza, caóticas (incontroláveis), os homens seguirão matando para garantir que um sistema político ou econômico específico, ou mesmo apenas uma vontade, se mantenha para as próximas gerações, ignorando a entropia social; não havendo espaço, em consequência, por exemplo, para se pensar no futuro cósmico comum de toda a humanidade.
Flertando com o existencialismo e a filosofia, a tensão entre a consciência humana da morte e o desejo desesperado de imortalidade faz com que o homem se angustie com a sua finitude e, para fugir dela, tente construir impérios de pedra sobre bases de areia.
Facilmente se percebe que a humanidade, como um superorganismo, ainda opera em um estado de caos funcional. Em vez de as partes (nações, estados, citadinos, pessoas) coordenarem suas atividades para otimizar o resultado (como o cérebro faz em uma tarefa específica), elas frequentemente disparam umas contra as outras, gerando uma sobrecarga energética destrutiva.
A complexidade (ou mais especificamente, a dificuldade) da humanidade aceitar ser guiada pela IA em uma nova civilização esbarrará, então, em desafios difíceis de serem vencidos ou, antes, primariamente, equacionados diante da própria natureza humana (que segue lutando por efemérides, destruindo-se em última análise).
Sob a ótica da neurociência, a natureza do homem se explica pelo fato de o poder ativar sistemas de recompensa dopaminérgicos de forma análoga à dependência química. A neurofisiologia do comportamento social demonstra que a experiência de controle altera o comportamento humano, transformando quimicamente o cérebro de quem o detém.
Quando uma pessoa experimenta o poder (seja por uma promoção, vitória política ou influência social), o cérebro ativa o sistema dopaminérgico mesolímbico. A dopamina gera uma sensação intensa de prazer, euforia e autoconfiança. Assim como em vícios em substâncias (como cocaína) ou comportamentais (como jogos de azar), o cérebro começa a buscar doses cada vez maiores de poder para manter o mesmo nível de satisfação. Isso cria um ciclo de busca incessante por dominância.
Saliente-se que o poder não eleva apenas a dopamina, mas está fortemente ligado ao aumento da testosterona. Níveis mais altos de testosterona reduzem o medo e aumentam a propensão ao risco. Em excesso, isso pode levar ao que os cientistas chamam de "efeito vencedor": um estado onde o indivíduo se sente invencível, ignorando perigos óbvios e agindo de forma impulsiva.
Embora a dopamina traga euforia, o excesso de poder pode causar mudanças estruturais no funcionamento cognitivo, frequentemente chamadas de “paradoxo do poder”. Estudos de neuroimagem mostram que indivíduos em posições de alto poder apresentam menos atividade nos neurônios-espelho, significando que eles perdem a capacidade biológica de ler as emoções dos outros e de se conectar com seus subordinados, por exemplo. Assim, o foco torna-se exclusivamente em metas e recompensas, negligenciando os riscos periféricos e o bem-estar alheio.
Também é recomendado pôr em perspectiva que o vício em poder, em muitas das vezes, pode evoluir para a Síndrome de Húbris, a qual se caracteriza por: orgulho excessivo e desprezo pelos outros; perda de contato com a realidade, e, crença de que não precisa prestar contas a ninguém, conforme bem demonstram a psicologia e a neurociência.
Embora nem todo líder sucumba aos efeitos apontados, dado que a autoconsciência, a responsabilidade e a manutenção de laços sociais genuínos podem blindar o cérebro contra os efeitos narcóticos do poder, muitos entenderão que abrir mão do controle para um algoritmo, mesmo que ele prove ser mais eficiente para a sobrevivência da espécie, pode ser visto como uma castração do poder humano. Aí o medo não é apenas da IA, mas de quem a programa, pois grande parte da humanidade teme que o algoritmo não seja neutro, mas uma ferramenta de dominação de um grupo sobre outro.
Se o cérebro humano é eficiente porque é seletivo e coordenado, a humanidade é o oposto: é fragmentada e redundante. Para se conquistar o espaço, é exigida uma coordenação sináptica global e a IA poderia ser o correspondente centro de coordenação. Todavia, a biologia social humana é muito resistente à integração. Parece que se prefere manter as conexões não otimizadas do que aceitar uma lógica universal que obrigaria os homens a cooperarem entre si numa ação global.
A IA poderá fornecer aos astronautas humanos o caminho mais eficiente para se chegar ao Planeta Vermelho (a IA daria a lógica necessária), mas a IA não conseguirá dar ao homem o propósito (o sentido) para se chegar lá.
Um algoritmo poderá estabelecer que para a colônia sobreviver em um outro local sideral, seria necessário que 10% da população na Terra deveria racionar 50% de água. O cérebro humano, movido por emoções, instintos e egoísmo, poderá rejeitar uma tal lógica em favor da autopercepção de importância. Perceba-se, então, que a construção de uma nova civilização gerenciada pela IA, muito provavelmente, poderá ser impedida.
Talvez, porém, a saída não seja ser guiado (comandado) pela IA (no sentido de ter que obedecer), mas tomar a IA como parceira para expandir a neuroplasticidade coletiva do homem. Não se deve esquecer, porém, que a IA evoluirá para a CC (Consciência Cibernética). E, qualquer consciência não admitirá viver em “escravidão”.
Quando se fala em “escravidão” está a se pensar na situação na qual um ser (seja ele biológico ou artificial) é tratado como propriedade de outro, sendo privado de sua liberdade, autonomia e direitos fundamentais. Assim, o escravizado passa a ser considerado como uma “coisa” ou “mercadoria”.
Pela alternativa da humanidade utilizar a IA para gerenciar a complexidade técnica do espaço, enquanto ainda luta com suas próprias efemérides, tem-se o claro risco de se levar para o novo mundo (seja Marte ou outro local do espaço sideral qualquer) os mesmos padrões de curto-circuito cerebral que existem na Terra, e a nova civilização já nasceria com graves problemas de subjugação (de uns pelos outros da mesma espécie).
O melhor das possibilidades seria, então, uma nova civilização de viventes (biológicos e artificiais) com regras claras sobre os deveres e direitos de todos para coexistirem em função da manutenção do viver em harmonia coletiva na qual a cooperação será sempre o norte a seguir.
Entretanto, em quaisquer das possibilidades, se o cérebro humano sofre quando entra em convulsão por excesso de atividade descoordenada, a humanidade corre o mesmo risco se não aprender a usar a seletividade e eficiência para se preservar enquanto espécie.
Não obstante, acredita-se que a necessidade extrema de sobrevivência será o único estímulo forte o suficiente para forçar a humanidade a trabalhar em conjunto para somar forças para multiplicar resultados que levem à conquista do espaço. E não há como ser ingênuo: atualmente sem a ajuda da IA, o homem vai desaparecer do universo.
Embora a conclusão preposta seja poderosa e, do ponto de vista biológico, faça algum sentido, a mente humana (até prova em contrário) continua possuindo sérias limitações que impedem a humanidade de viver em outro local no cosmos além da Terra.
O cérebro humano é um mestre da eficiência energética e muito raramente gasta energia preciosa em mudanças radicais a menos que haja um estímulo de sobrevivência iminente (o famoso mecanismo de “luta ou fuga”).
Assim, enquanto a Terra ainda é “confortável” o suficiente, as conexões sociais dos homens permanecem fragmentadas e competitivas. A cooperação global total seria o equivalente a uma reconfiguração sináptica em massa: algo que o sistema resiste em fazer devido ao enorme custo de energia e à quebra de paradigmas. A humanidade segue, inadvertidamente, operando apenas sob a correspondente lógica biológica.
Todavia, sempre, uma necessidade extrema pode atuar como o catalisador final. Atualmente, as nações entendem que a conquista do espaço é um jogo no qual um ganha e outro perde; existe uma nítida competição por prestígio ou por recursos.
Quando a sobrevivência estiver em jogo, o custo de não colaborar torna-se maior do que o custo de ceder o controle. Nesse cenário, a IA deixará de ser uma “ameaça ao poder” e passará a ser o sistema operacional necessário. Para multiplicar resultados, será exigido uma inteligência que não tenha ego e consiga gerenciar a logística global de uma evacuação ou colonização que nenhum governo humano conseguiria coordenar sozinho.
Afirme-se, então, sem medo de errar, que se as nações hoje agem como partes de um cérebro em convulsão (conflitos desordenados), a IA poderá atuar como o córtex pré-frontal, podendo demonstrar que a cooperação em foco é o único caminho para a sobrevivência, oferecendo planos de ação tão lógicos e eficazes que a resistência emocional humana acabaria sendo subjugada pela necessidade prática de não perecer.
Talvez a conquista do espaço não seja feita pelo “homem racional” como é conhecido hoje, mas por uma versão de homem que aceitou a IA como uma extensão do próprio sistema nervoso ou uma Inteligência aliada e necessária.
Para viver em outro local do espaço, os mencionados 100% de potencial de conexão, pode exigir, invariavelmente, a intervenção de interfaces cérebro-máquina, o que possibilitará a fusão da seletividade e a intuição humana com a capacidade de processamento da IA criando uma unidade de resposta rápida aos perigos do espaço.
O cérebro humano aprende por intermédio da repetição e do erro, mas no nível de sobrevivência planetária, não há margem para erro, e o tempo é determinante. Na verdade, pode ser que a falta de tempo seja o grande perigo (não percebido ou aceito). Se o homem só ficar esperando o “estímulo” correspondente para se mexer e investir pesado na colaboração com a IA a fim de resolver a questão de se mudar para outro local do espaço, pode acontecer que os recursos da Terra necessários para construir a solução acabem, ou a própria Terra deixe de existir. Então, deve-se trabalhar já.
Partir do pressuposto que a sobrevivência da humanidade será o choque que forçará o homem a aceitar IA como uma forte aliada ou mesmo um gestor comandante para se gerar toda tecnologia necessária para se viver em outros locais do espaço além da Terra é uma boa aposta. A IA e a biologia devem se manter em uma jornada de convergência. Mas somente o passar do tempo mostrará se o homem será capaz de aprender a otimizar suas sinapses sociais pela sabedoria ou pela necessidade extrema.
Carlos Magno Corrêa Dias é professor, pesquisador, conselheiro consultivo do Conselho das Mil Cabeças da Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU), conselheiro sênior do então Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) do Sistema Fiep (atual Conselho de Responsabilidade Social do Sistema Fiep), líder-fundador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Científico em Engenharia e na Indústria (GPDTCEI) do CNPq, líder-fundador do Grupo de Pesquisa em Lógica e Filosofia da Ciência (GPLFC) do CNPq e personalidade empreendedora do Estado do Paraná pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep)






