logo seesp

 

BannerAssocie se

18/05/2026

Muito além do salário: o que os profissionais esperam das empresas

Alexandra Justo*

 

Imagem: MagnificA partir de 26 de maio de 2026, a atualização da NR-1 consolida um marco relevante na gestão do trabalho no Brasil ao incorporar, de forma mais estruturada, os riscos psicossociais ao ambiente corporativo.

 

Mais do que uma exigência normativa, o movimento representa uma mudança de mentalidade: saúde emocional, relações interpessoais, sobrecarga mental, assédio, pressão excessiva e esgotamento deixam de ser temas periféricos e passam a ocupar posição estratégica nas organizações.

 

Nas empresas que realizaram os levantamentos internos, a experiência do preenchimento dos questionários revelou um cenário sensível e, ao mesmo tempo, necessário.

Muitos empregados demonstraram, pela primeira vez, a oportunidade de expressar sentimentos relacionados à exaustão, insegurança psicológica, ausência de reconhecimento, conflitos de liderança e desequilíbrio entre vida pessoal e profissional.

 

Em diversos casos, o simples ato de serem ouvidos já trouxe percepção de acolhimento, respeito e pertencimento organizacional. Contudo, ainda se observa a necessidade de reforçar continuamente a confiança no processo, especialmente quanto à confidencialidade das informações prestadas.

 

É fundamental que os empregados compreendam que os resultados não têm como objetivo expor indivíduos, identificar respondentes ou promover qualquer forma de retaliação, mas sim mapear indicadores coletivos capazes de direcionar ações efetivas de melhoria no ambiente de trabalho, fortalecendo uma cultura organizacional mais humana, segura e sustentável.

 

Por outro lado, também se observou um receio evidente entre líderes e gestores. Grande parte das lideranças já opera em elevados níveis de desgaste emocional, pressionada por metas, escassez de equipes, transformações tecnológicas aceleradas e demandas contínuas por resultados.

 

Para muitos, a chegada do tema psicossocial desperta preocupação quanto à responsabilização, exposição de fragilidades e necessidade de revisão profunda dos modelos de gestão tradicionalmente praticados.

 

Entretanto, a eficácia da nova abordagem não estará apenas no diagnóstico, mas principalmente na execução consistente dos planos de ação. Não basta aplicar formulários ou realizar campanhas pontuais. Será indispensável transformar dados em medidas concretas: fortalecimento da cultura de respeito, desenvolvimento de lideranças emocionalmente preparadas, revisão de jornadas excessivas, melhoria da comunicação interna, criação de canais seguros de escuta e promoção genuína de ambientes psicologicamente saudáveis.

 

As organizações que compreenderem essa transformação de forma estratégica estarão mais preparadas para reter talentos, fortalecer sua reputação institucional e aumentar níveis sustentáveis de produtividade. Ignorar os riscos psicossociais poderá representar não apenas impactos legais e trabalhistas, mas também perdas humanas, adoecimento coletivo, aumento de afastamentos e desengajamento progressivo das equipes.

 

As novas gerações, especialmente, já demonstram uma percepção muito diferente sobre carreira e sucesso profissional. Hoje, qualidade de vida, saúde mental, propósito, flexibilidade e respeito no ambiente de trabalho passaram a ser requisitos fundamentais de permanência nas empresas. O salário continua importante, mas já não é suficiente para sustentar relações profissionais adoecidas ou ambientes tóxicos. Há uma consciência crescente de que nem tudo se compensa financeiramente.

 

Dessa forma, a implementação da gestão dos riscos psicossociais pela NR-1 pode representar uma das mudanças mais humanas e transformadoras das relações de trabalho contemporâneas.

 

O desafio das empresas não será apenas cumprir uma norma, mas desenvolver maturidade organizacional para compreender que cuidar das pessoas deixou de ser diferencial e passou a ser condição indispensável para sustentabilidade, inovação e futuro.

 

*Alexandra Justo é gestora de pessoas do SEESP

 

 

Lido 81 vezes

Receba o SEESP Notícias *

agenda

ART site SEESP 2025