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19/05/2026

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Quando a lógica do lucro ameaça a vida e a engenharia

 

Tragédia ocorrida no bairro paulistano do Jaguaré recoloca em debate os impactos da privatização da Sabesp, o enfraquecimento da capacidade técnica da empresa e os riscos de submeter serviços essenciais às pressões de curto prazo.

 

TragediaJaguaréA explosão ocorrida no dia 11 de maio no Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, durante obra da Sabesp, deixou um rastro de destruição, vítimas fatais, feridos, famílias desalojadas e uma cidade perplexa diante da violência da tragédia. O episódio exige apuração rigorosa, transparente e célere, como defendeu o SEESP em nota pública.

 

Contudo, não se trata apenas de identificar causas imediatas ou responsabilidades pontuais, mas de compreender o contexto mais amplo em que acidentes dessa magnitude passam a ocorrer. É impossível ignorar uma questão central: o progressivo esvaziamento da capacidade técnica e operacional de uma empresa estratégica ao desenvolvimento paulista e nacional.

 

O saneamento básico é uma atividade de alta complexidade. Não se resume à execução de obras ou ao cumprimento de metas financeiras. Envolve planejamento de longo prazo, engenharia qualificada, conhecimento acumulado, gestão de riscos, domínio territorial das redes subterrâneas e protocolos rigorosos de segurança. É um setor no qual experiência prática salva vidas.

 

Nos últimos anos, porém, especialmente após o processo de privatização da Sabesp, levado a cabo em julho de 2024, quando o serviço foi entregue a uma empresa sem experiência no setor. Aparentemente, a partir daí, consolidou-se uma lógica de gestão voltada prioritariamente à maximização de resultados financeiros, com redução acelerada de quadros próprios, programas de desligamento incentivado, terceirizações e perda de profissionais altamente experientes. Em nome da eficiência medida por indicadores de mercado, desmontam-se estruturas técnicas construídas ao longo de décadas.

 

Quando profissionais experientes deixam a empresa sem reposição adequada ou sem tempo para transferência de conhecimento, cria-se um vazio técnico extremamente perigoso. Jovens trabalhadores e equipes terceirizadas passam a atuar em ambientes de alta complexidade sem o suporte necessário de estruturas consolidadas de formação, supervisão e acompanhamento operacional.

 

Nesse contexto, é fundamental lembrar que responsabilidade técnica não é mera exigência burocrática; pressupõe condições efetivas de trabalho, autonomia profissional, equipes em número suficiente e capacitadas, planejamento adequado e ambiente organizacional comprometido com segurança e qualidade.

 

A engenharia não pode ser reduzida a assinatura em documento ou etapa protocolar de contratos. Seu papel é justamente assegurar que projetos, obras e operações sejam executadas com segurança, rigor técnico e proteção à vida humana.

 

A tragédia do Jaguaré precisa servir como alerta profundo à sociedade. Serviços essenciais não podem ser submetidos exclusivamente à lógica do lucro de curto prazo. Água, saneamento e infraestrutura urbana são áreas estratégicas, diretamente relacionadas à saúde pública, ao meio ambiente, à segurança das cidades e à qualidade de vida da população.

 

A discussão sobre os efeitos da privatização da Sabesp, portanto, ultrapassa a esfera ideológica. Trata-se de debater quais valores devem orientar a gestão de setores vitais ao interesse coletivo.  

 

Nossa solidariedade às vítimas, seus familiares e todos os trabalhadores afetados nessa tragédia.

 

Eng. Murilo Pinheiro – Presidente

 

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