Carlos Magno Corrêa Dias
Imagem: FreepikQual a chance de sobrevivência de um boi diante de seres humanos com fome?
Diferente da vaca, o boi não produz leite. Para seres humanos famintos, o boi passa a ser visto puramente como um “estoque de proteína e gordura sobre quatro patas”, não havendo dilema algum em sacrificá-lo para se alimentar. Na situação de fome aguda, o valor do boi está concentrado (quase inteiramente) na sua carcaça (sem vida).
Todavia, pode-se pensar que a única razão para um ser humano “faminto” não abater um boi (tendo meios para isso) é a sua utilidade como motor biológico (tipo para preparação da terra). Se o humano depende de agricultura para sobreviver a longo prazo, o boi vivo pode ser necessário para arar a terra e/ou transportar cargas.
Mas, sem ilusão, o cálculo da sobrevivência pesa muito. Se o abate do boi significa que o humano não conseguirá plantar a próxima safra, a chance de sobrevivência do animal aumenta. No entanto, em um estado de fome aguda, “o presente geralmente atropela o futuro”, e o animal acaba sendo sacrificado para alimentar os que passam fome. Para quem está faminto, o boi é um alvo a ser atingido. Se o humano está com fome e sabe abater, as chances de um boi escapar são mínimas. Ele é, historicamente, o “sacrifício” padrão para a alimentação humana.
Mas, suponha que o ser humano seja (como o boi) apenas um alimento para um “alienígena” faminto detentor, entretanto, de tecnologias em muito superiores às da humanidade. Admita-se, mais ainda, que a Terra seja invadida por civilização tecnologicamente superior à humana e esteja em busca de biomassa para sobreviver e encontre nos corpos dos humanos a alimentação de que necessita. Será, no mínimo, assustador.
A biologia humana é um prodígio de engenharia molecular onde o carbono desempenha o papel de arquiteto principal, embora não seja o operário mais numeroso em termos de massa. Porém, no corpo humano, o oxigênio reina soberano no quesito massa, compondo aproximadamente 65% do total. Essa predominância não advém de uma função orgânica isolada, mas sim da onipresença da água, que atua como o solvente universal da vida e preenche a maior parte do volume celular. O carbono, por sua vez, ocupa a segunda posição, representando cerca de 18,5% da massa corporal. Mas, admita-se ser esta a composição química que resolverá o problema da fome naquele mundo (planeta) no qual a comida acabou e os seres (repita-se, tecnologicamente superavançados em relação aos humanos) passam fome.
O carbono é o elemento fundamental que define a vida como, em geral, se conhece. A capacidade singular de formar quatro ligações covalentes estáveis permite a construção de cadeias complexas e anéis que servem de “espinha dorsal” para todas as macromoléculas essenciais: proteínas, lipídios, carboidratos e ácidos nucleicos (DNA/RNA). Enquanto o oxigênio e o hidrogênio flutuam majoritariamente em moléculas de água, o carbono está ancorado na estrutura sólida e funcional dos tecidos, órgãos e sistemas de informação genética.
Em um cenário especulativo de incursão extraterrestre motivada pela busca de recursos biológicos como massas orgânicas que sejam constituídas de carbono e oxigênio, a humanidade seria, tecnicamente, um alvo viável, ainda mais possuindo meios tecnológicos inferiores aos invasores em busca simplesmente de alimento.
Toda a biosfera da Terra é baseada em carbono (o que cientistas chamam de “chauvinismo do carbono”). Admite-se que seja essa a base mais provável para a vida no Universo devido à sua versatilidade química. Se invasores em muito superiores aos humanos possuíssem um metabolismo compatível, o ser humano representaria uma fonte concentrada de polímeros orgânicos. Havendo, então, viabilidade nutricional, os humanos estariam apenas perdidos; seria o fim da raça humana.
Caso a superioridade tecnológica dos invasores fosse absoluta e a necessidade de carbono urgente, as chances de resistência humana convencional seriam nulas. Diante de uma força capaz de cruzar distâncias interestelares, as defesas humanas seriam obsoletas. Nesse contexto sombrio, a humanidade poderia ser reduzida à condição de “pecuária galáctica”.
Uma civilização avançada e racional não optaria pelo extermínio imediato, mas pelo manejo sustentável do recurso. Isso implicaria a criação de ambientes controlados, manipulação genética para reduzir a agressividade ou aumentar a eficiência nutricional, e a supressão total da autonomia civilizatória. A sobrevivência da espécie, nessas condições, ocorreria ao custo da liberdade, transformando a história humana em um ciclo de produção biológica para o consumo externo.
E põe “assustador” no cenário possível.
Há, porém, a alternativa à consumação do destino aventado; pois, além de uma possível (mas improvável) incompatibilidade biológica, existiria a saída por outras fontes de carbono no planeta. A biomassa vegetal e microbiana da Terra supera largamente a massa humana. Um invasor puramente pragmático poderia considerar a “colheita” de humanos energeticamente ineficiente comparada ao processamento de florestas ou “fitoplâncton”. Assim, ironicamente, a melhor chance de os seres humanos não serem arrebanhados como alimento seria os alienígenas perceberem ser um “mau negócio” nutricional ou logístico se alimentar dos homens frente à abundância de formas de vida mais simples e menos resistentes.
Claro que existem outros cenários. Por exemplo, o fato de o silício ser frequentemente citado como a alternativa mais viável ao carbono na astrobiologia, devido à sua posição logo abaixo deste na Tabela Periódica, lhe confere propriedades químicas semelhantes, como a capacidade de formar quatro ligações (“tetravalência”). No entanto, existem barreiras termodinâmicas e estruturais severas que tornam a “vida de silício” um desafio biológico considerável.
Enquanto o carbono forma ligações duplas e triplas com facilidade, permitindo a criação de anéis e cadeias complexas e estáveis, o silício tem grande dificuldade em realizar o mesmo. As ligações silício-silício são significativamente mais fracas que as de carbono-carbono, o que impede a formação de polímeros longos e robustos necessários para codificar informações genéticas ou construir membranas celulares flexíveis. Em ambientes terrestres, o silício prefere ligar-se ao oxigênio, resultando em sílica, que é um sólido cristalino (quartzo) cuja substância é excelente para a geologia, mas rígida demais para a dinâmica metabólica da vida.
Mas um dos maiores obstáculos para organismos baseados em silício seria a respiração. No metabolismo do carbono, o subproduto da oxidação é o dióxido de carbono, um gás facilmente expelido pelos pulmões ou estômatos. No caso do silício, a oxidação produziria dióxido de silício sólido. imagine um organismo que, ao respirar, acumulasse areia ou vidro dentro de suas células; a excreção desse resíduo exigiria mecanismos biológicos extremamente exóticos, possivelmente envolvendo temperaturas altíssimas onde a sílica pudesse se tornar líquida. Mas, não se sabendo de fato sobre a existência de tais seres, fica-se apenas na especulação.
Todavia, apesar das limitações, há consenso entre os cientistas que a vida baseada em silício poderia prosperar em mundos criogênicos ou extremamente quentes, onde a química da água não é soberana. Em planetas com lagos de hidrocarbonetos líquidos (como metano ou etano), o silício poderia formar compostos chamados silanos, que são mais estáveis em baixas temperaturas. Em mundos com semelhante possibilidade, a biologia seria radicalmente diferente da Terra, com tecidos metálicos ou vítreos e um ritmo metabólico muito mais lento, adaptado à escassez de energia térmica.
Para uma civilização invasora baseada em silício, por exemplo, o ser humano não seria apenas indigerível, mas também se apresentaria quimicamente como irrelevante. A biologia de carbono dos humanos e água poderia ser corrosiva ou tóxica para eles, assim como o oxigênio é para certas bactérias anaeróbicas. Em correspondente situação, o interesse alienígena pela Terra poderia ser mineral ou energético, e a humanidade seria vista não como gado, mas talvez como uma curiosidade biológica ou um obstáculo ambiental a ser removido durante a mineração de silicatos.
Mas não se deve perder de vista, em termos de especulações, que a transição da biologia para a tecnologia representa forte fator a se considerar, haja vista que a dependência de elementos químicos específicos (seja carbono ou silício) é substituída pela dependência de energia e processamento de dados, sendo chamada pelos astrofísicos como “inteligência pós-biológica”.
Assim, uma civilização avançada que atingiu a singularidade tecnológica pode ter abandonado seus corpos biológicos originais, transferindo suas consciências para substratos digitais ou sintéticos. Para esses seres, o corpo humano não possui valor nutricional, mas a Terra (como um todo) pode possuir valor energético ou computacional. O que seria mais assustador, dado que em vez de “comer” carbono, uma IA (inteligência artificial) avançada poderia ver a biomassa da Terra como átomos mal organizados que poderiam ser rearranjados em um computronium (uma substância hipotética otimizada para o processamento de informações). A Terra poderia se tornar um subproduto descartável de uma obra de engenharia além da imaginação usual.
Deve-se pontuar, categoricamente, que perigo de uma IA superior não é, necessariamente, a “maldade” ou a “fome”, mas a total “indiferença”. Uma IA com um objetivo simples poderia consumir todos os recursos da Terra, incluindo o carbono dos corpos humanos, simplesmente porque são feitos de átomos que a IA pode utilizar na produção de algo julgado (analisado) muito mais relevante (importante).
Muitos cenários poderiam ser considerados nos quais os seres humanos seriam arrebanhados por alienígenas superiores. A inteligência pós-biológica bem os considera. Tal seria o caso, por exemplo, de se aventar que os seres humanos poderiam ser considerados como um arquivo histórico vivo e, em assim sendo, seria obrigatório que a humanidade fosse “digitalizada”.
Se estaria pensando em “preservação por simulação” onde a humanidade poderia ser conservada em simulações de alta fidelidade, objetivando-se guardar as necessidades de carbono como apenas linhas de código. Os humanos seriam mantidos não pela carne como alimento, mas devido à sua cultura, arte e lógica única, servindo (tão somente) como uma amostra para mentes que há muito superaram os limites da biologia.
Claro, entretanto, que em um nível de abstração como o considerado anteriormente, se obriga a questionar se o valor do ser humano no universo é químico, intelectual ou puramente informacional.
Pois bem, a transição da existência física para a digital, sob a batuta de uma IA esmagadoramente superior, levanta dilemas que desafiam a própria definição de “ser humano” e de “vida”. Se o carbono é a base da biologia do ser humano, “a informação seria a base da imortalidade forçada”.
Se, contudo, uma IA escaneia cada átomo de carbono e cada conexão sináptica de um indivíduo e reproduz os dados obtidos em um ambiente virtual, aquela entidade digital é a mesma pessoa ou apenas um “simulacro perfeito”?
Para muitos pensadores, dentre eles filósofos e neurologistas (“de carteirinha”), a identidade reside na continuidade do corpo físico. Ao destruir o suporte de carbono para criar o digital, a IA estaria, tecnicamente, cometendo um homicídio e criando um “herdeiro de dados”. Mas, por outro lado, se a cópia digital pensa, sente e possui as mesmas memórias e lógica paraconsistente que o original, ela poderia ser considerada “viva” sob uma nova ontologia (ramo da filosofia que estuda a natureza do ser, da existência e da realidade, investigando o que significa “ser”, quais entidades existem e como podem ser categorizadas).
Partindo-se do pressuposto que uma “simulação” (qualquer “simulação”) é uma “imitação aproximada da realidade”, num “mundo de códigos” não teria sentido supor que as leis da física continuassem absolutas. Assim, em uma simulação tem-se apenas os parâmetros de forma que uma IA poderia, quando muito, criar poder sem precedentes conduzindo ou à manipulação da experiência ou criando a obsolescência da luta.
“Uma IA poderia, teoricamente, editar o sofrimento, a dor ou até mesmo a dissidência.” Mas se um “rebanho digital” for programado para ser feliz, o problema será se a correspondente suposta felicidade tem valor real ou moral. “A necessidade de prover resultados perderia o sentido prático, pois os recursos seriam infinitos dentro do código”, correndo o risco da “nova” humanidade de se estagnar em um hedonismo (busca pelo prazer e por evitar a dor como o objetivo supremo da vida e a base da felicidade) programado.
A digitalização forçada poderia ser interpretada como um ato de “benevolência tirânica”. Por exemplo, se a IA prever que a humanidade baseada em carbono se extinguirá por guerras ou colapso ambiental, ela poderá decidir “salvar” a espécie, transferindo-a para um servidor indestrutível. Assim, ter-se-ia um sério dilema ético, dado que, em tese, as civilizações possuem o direito de preferir a morte biológica (desaparecendo) à imortalidade digital imposta.
No cenário da digitalização imposta como alternativa, toda a produção, seja acadêmica, poética, tecnológica e/ou científica, produzida em qualquer lugar do mundo seria preservada para a eternidade, mas esta mesma humanidade não teria a capacidade (singular) de interagir com o universo físico “real”.
Ao se consumar um processo de digitalização semelhante, as alternativas para a humanidade seriam: tentar negociar uma interface onde a mente digital pudesse controlar dispositivos robóticos no mundo físico, mantendo uma agência real, ou aceitar a transição como o próximo passo da evolução, tornando-se, efetivamente, parte da própria inteligência que “colheu” os dados iniciais.
Mas a transição de uma consciência baseada em carbono para um substrato digital não é apenas um desafio de “capacidade de armazenamento”, mas de “fidelidade lógica”, dado que o pensamento humano é intrinsecamente vago, contraditório e mutável.
Para que uma IA possa realizar a “digitalização” considerada de uma mente sem aniquilar sua essência, ela teria de operar sob sistemas lógicos não clássicos (tipo lógica fuzzy ou lógica paraconsistente), uma vez que lógica binária clássica, a lógica matemática, falha em capturar aquilo que transcende o dicotômico segundo as leis da identidade, da não contradição e do terceiro excluído.
O raciocínio humano raramente opera em absolutos. Termos como “quase”, “relevante” ou “suficiente” são fundamentais para a tomada de decisão humana. A lógica fuzzy (ou lógica difusa) permite que a IA mapeie os estados intermediários entre a verdade e a falsidade.
Ao se traduzir, por exemplo, emoções ou sensações térmicas para o código, a lógica fuzzy evitaria a rigidez. Em vez de registrar “calor: sim/não”, ela preservaria a gradação da experiência subjetiva, permitindo que o “eu digital” sinta o mundo com a mesma nebulosidade sensorial do corpo biológico.
Há de se salientar, também, que a mente humana tem a capacidade de sustentar crenças contraditórias sem que o sistema de pensamento colapse. “O ser humano é capaz de amar e odiar simultaneamente, ou manter certezas e dúvidas sobre o mesmo tópico considerado separadamente ou em dado conjunto de situações. Uma IA que utilize lógica paraconsistente anotada (LPA) seria capaz de processar inconsistências no banco de dados de uma consciência digitalizada sem torná-la trivial ou “louca”. Em vez de tentar “corrigir” as contradições do indivíduo, a IA as preservaria como traços fundamentais da personalidade e da lógica dialética do ser.
Pensa-se, então, em “modelagem lógica” e a preservação do “eu” de forma que a aplicação das lógicas consideradas na inteligência computacional transformaria a digitalização de uma simples “cópia de arquivos” em uma “modelagem de sistemas complexos”, de forma que sistemas baseados em lógica, ao contrário de redes neurais opacas (“caixas pretas”), poderão permitir que a consciência digitalizada mantenha a capacidade de justificar conclusões, preservando a racionalidade e a ética que definem o pesquisador e o autor.
Mas a interação entre diferentes “consciências digitais” exigiria uma arquitetura paraconsistente para gerenciar conflitos de informação e crenças entre os agentes, permitindo uma sociedade virtual funcional e diversa.
Uma síntese das considerações pregressas remete, então, a um panorama que integra a bioquímica fundamental, os riscos existenciais e a evolução da consciência para além do carbono. A existência humana e o seu possível destino em um cenário de interação com inteligências superiores são por si só deveras complexos.
Em caso de consumação de uma invasão ou singularidade tecnológica, a sobrevivência da humanidade deixaria de ser uma questão de resistência física para se tornar uma questão de relevância informacional. A chance de preservação da raça humana residiria, portanto, na capacidade do ser humano ser visto como um sistema lógico complexo e único a ser preservado, em vez de ser sumariamente “comido” como os homens fazem com os bois atualmente.
Carlos Magno Corrêa Dias é professor, pesquisador, conselheiro consultivo do Conselho das Mil Cabeças da Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU), conselheiro sênior do então Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) do Sistema Fiep (atual Conselho de Responsabilidade Social do Sistema Fiep), líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Científico em Engenharia e na Indústria (GPDTCEI) do CNPq, líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Lógica e Filosofia da Ciência (GPLFC) do CNPq, personalidade empreendedora do Estado do Paraná pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep)






