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21/05/2026

Atrasos nos investimentos em transporte ferroviário e obras paradas prejudicam o desenvolvimento

CONTEÚDO ESPECIAL

Emiliano Stanislau Affonso Neto

 

Ao longo de décadas presenciamos a priorização do transporte individual em detrimento do coletivo, com abandono do transporte ferroviário. Resultado é crescimento vertiginoso dos congestionamentos e da poluição e desperdícios bilionários que estão inviabilizando o futuro de nossas grandes cidades com consequências no crescimento do País e na qualidade de vida.


Após atraso de 12 anos nas obras, Linha 17 – Ouro começa a sair do papel e tem primeiro trecho inaugurado. Foto: Metrô-SPO transporte coletivo, em especial sobre trilhos, foi deixado para segundo plano, com grande parte das expansões paralisadas e com investimentos em modernização e melhorias sistematicamente postergados, tendo como resultado o crescimento vertiginoso dos congestionamentos e da poluição e desperdícios bilionários que estão inviabilizando o futuro de nossas grandes cidades com consequências no crescimento do País e na qualidade de vida.

 

Buscando tirar o atraso, em 2014 o Governo do Estado de São Paulo (Gesp) informava ter um plano consolidado de ampliação/construção de dez linhas de metrô e de trens que aumentariam em 130,6 quilômetros e 103 estações a malha metroferroviária. Infelizmente pouco do prometido foi feito, várias obras não saíram do papel ou foram paralisadas sem prazo para sua continuidade.

 

Nos últimos 30 anos, o adensamento na cidade de São Paulo mudou de perfil: intensificou-se tanto pela periferia extrema quanto por processos de verticalização no centro expandido. O distrito da Vila Andrade destacou-se como um dos que mais receberam novos moradores e verticalizou-se intensamente

 

Comparando os dados oficiais dos Censos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1991 e 2022, Vila Andrade registrou um crescimento populacional impressionante de 296,16%. A população do distrito saltou de 42.576 habitantes em 1991 para 168.669 em 2022, sobrecarregando a infraestrutura urbana local, gerando gargalos severos e desigualdades internas. Não são só os governos perdem dinheiro com as paralisações das obras, mas também a população, a economia e a saúde são prejudicadas.

 

O atraso na implantação da Linha 17 – Ouro, que atenderia a região, agravou esse quadro. Houve saturação de vias estruturais como Giovanni Gronchi, Carlos Caldeira Filho e Hebe Camargo, que registram congestionamentos diários, o distrito é isolado pelo Rio Pinheiros e o fluxo afunila nas pontes; o perfil de condomínios estimulou o uso de carros particulares, multiplicando o volume de veículos por domicílio, e as linhas de ônibus locais operam superlotadas.

 

Bons ventos sinalizam uma melhora para a região. Em 31 de março último, a Linha 17 – Ouro, com atraso de 12 anos, teve a inauguração provisória do Trecho 1, com 6,7 km, oito estações que se integram as linhas 5 – Lilás e 9 – Esmeralda e ligam o Aeroporto de Congonhas à Marginal Pinheiros. Este primeiro trecho tem Pátio de Manutenção e Centro de Controle Operacional para atendimento de toda a Linha 17.

 

Durante a inauguração, o governador do Estado de São Paulo, Tarcísio de Freitas, anunciou a publicação do edital de contratação do projeto executivo para a extensão da linha. Serão mais 4,6 km, com três estações que atenderão Paraisópolis e uma no sentido Washington Luís. A empresa contratada terá 22 meses para fazer o projeto e só a partir daí começam as obras, ou seja, em 2028.

 

Vale lembrar que os imóveis necessários para a construção do trecho entre a Marginal Pinheiros e a Rua Flávio Américo Maurano, que contempla três estações, estão desapropriados há mais de dez anos.

 

Segundo Roberto Torres, diretor de Engenharia do Metrô, a expectativa é que os trens cheguem a Paraisópolis até 2032. Depois, o monotrilho deve entrar em uma nova fase de expansão até as estações São Paulo-Morumbi e Jabaquara, conectando o modal às linhas 4 e 1 do Metrô, respectivamente, com previsão de entrega para 2034.

Para essa continuação, será necessário o prolongamento da Avenida Hebe Camargo, conforme convênio firmado entre o Gesp e a Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP) para a construção da Linha 17 – Ouro e as obras viárias associadas.

 

Como o monotrilho é instalado no canteiro central, outra obra necessária é o alargamento e a extensão da Avenida Hebe Camargo, o que depende da Prefeitura. Porém, segundo a gestão Ricardo Nunes, isso está contemplado no Programa Nova Paraisópolis, que prevê R$ 1,6 bilhão em investimentos públicos na área.

 

Segundo Roberto Torres, “o monotrilho custa até 40% mais barato que o metrô. Os atrasos e as quebras de contratos deixaram a Linha 17 mais cara. Com as extensões, esse valor será diluído. Nossa expectativa é chegar a R$ 500 milhões por quilômetro. Para mim, o prejuízo maior não é financeiro, e sim do tempo que a população ficou sem o serviço”.

 

Não podemos aceitar passivamente a paralisação de obras de mobilidade, pois a falta delas comprometerá o nosso futuro. Temos que dar apoio técnico aos nossos dirigentes, envolver nossos representantes no Legislativo e alertar a sociedade civil organizada que o desenvolvimento consistente do nosso País passa pela reversão urgente da forma que priorizamos os investimentos em mobilidade urbana.

 

Diante de uma crise, é natural que os governantes busquem maior critério nos gastos públicos, porém não podemos aceitar a paralisação e diminuição das obras e investimentos na mobilidade urbana, pois essa falta de prioridade mostra a incompreensão a respeito de um aspecto cristalino, provado em outras latitudes e demonstrado por vários estudos aqui no Brasil: investimentos públicos nessa área garantem retorno aos cofres públicos na forma de impostos, dinamizam as cidades, diminuem seus custos e conferem eficiência, sendo fundamentais para a manutenção e geração de empregos, ajudando na retomada do crescimento e possibilitando que a economia se solidifique, garantindo um futuro melhor para toda a sociedade.

 

 

 

 

Emiliano Stanislau Affonso Neto é engenheiro, especialista em mobilidade urbana e diretor do SEESP

 

 

 

 

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