Soraya Misleh/Comunicação SEESP
Inovação está em em uso na cidade de São Paulo para realização de inventário da arborização urbana. A projeção é mapear as mais de 650 mil árvores na Capital em até três anos. Desafio segue sendo ampliar o número de engenheiros nos quadros da administração local para que o diagnóstico se converta em ações efetivas.
Tecnologia LIDAR acoplada a veículo está em uso para realização de inventário arbóreo na Capital. Foto: Sérgio Barzaghi/SecomUma tecnologia pioneira no País está em uso na cidade de São Paulo para realização de inventário da arborização urbana, a Light Detection and Ranging (LIDAR). A projeção é mapear as mais de 650 mil árvores na Capital em até três anos, conforme previsto pela Prefeitura ao inaugurar a ação em 12 de setembro último. Desafio segue sendo ampliar o número de engenheiros nos quadros da administração local para que o diagnóstico se converta em ações efetivas a uma São Paulo mais resiliente e verde.
Com investimento de R$ 18,8 milhões, o sistema avançado utiliza, conforme explica a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), tecnologia de Mapeamento Móvel (MMS), com scanner a laser LIDAR e inteligência artificial (IA), “possibilitando maior precisão e agilidade no levantamento das informações”.
A inovação, como descrito no portal da SVMA, “permite extrair uma série de informações detalhadas para a avaliação do estado de saúde geral da árvore. A empresa entregará imagens em 3D, fotos gerais e descritivos dos indivíduos de forma catalogada, para que sejam compilados e apresentados em um sistema desenvolvido pela administração municipal”.
Ainda segundo a Secretaria, entre os dados coletados estão “espécie, estado fitossanitário, Diâmetro do Tronco à Altura do Peito (DAP), ângulo de inclinação, altura total e da primeira bifurcação, altura e volume da copa, além da localização por georreferenciamento”.
Sérgio Brazolin: levantamento por sistema de alta precisão vai ajudar a priorizar ações em São Paulo. Foto: IPTO inventário com o uso da LIDAR começou, como relata o pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), professor Sérgio Brazolin, pelos bairros mais críticos e deve ao longo do próximo quinquênio se ampliar para toda a cidade – muito embora a Prefeitura tenha apresentado a conclusão em até três anos, em contraponto aos sete anos que seriam necessários para o mapeamento sem o recurso da tecnologia.
A empresa contratada – Metro Cubico Engenharia – transporta o equipamento, descreve ele, como se fosse “um carrinho Google Streetview [360 graus]”. Brazolin reforça: “Vai escaneando todas as árvores, medindo se tem interferência com a rede elétrica, fazendo identificação botânica com uso de IA e gera uma imagem em 3D perfeita.”
A SVMA destaca que os dados levantados “serão disponibilizados para cada Subprefeitura, que poderá agendar vistorias técnicas presenciais para avaliação das árvores identificadas”. E frisa: “A iniciativa é fundamental para aprimorar o planejamento das ações de manejo, supressão e plantio substitutivo. Após o cadastramento, as informações subsidiarão a gestão da arborização urbana em toda a cidade.”
Planejamento
O inventário está previsto na Ação Prioritária no. 1 do Plano Municipal de Arborização Urbana (PMAU), lançado em 2018. O prazo inicial de sua realização era, contudo, dezembro de 2024. Apesar do atraso, São Paulo saiu na frente em apresentá-lo em âmbito nacional, destaca Brazolin. A coordenadora do Curso de Especialização em Arborização Urbana da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), professora Aline Cavalari, ratifica. Segundo ela, no Brasil todo ainda há muitas cidades que não contam com tais planos.
Para tentar transformar essa realidade, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima lançou durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém (PA), no mês de novembro de 2025, o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU).
Alinhado ao Programa Cidades Verdes Resilientes do governo federal, dentre seus objetivos está garantir que 100% dos estados e municípios elaborem os seus planos locais até 2045. Assim, espera ampliar o percentual nacional dos atuais 45,5% de habitantes com três árvores ou mais no entorno de seu domicílio para 65% – o que representaria, conforme o PlaNAU, 40 milhões a mais de brasileiros vivendo em ambientes mais arborizados.
Essa meta atende a regra 3-30-300 – cada cidadão avistar três árvores de sua janela, cada bairro ter pelo menos 30% de cobertura vegetal e cada pessoa residir a uma distância máxima de 300 metros de um parque ou espaço verde público. Para Cavalari, um princípio que deve nortear as Prefeituras em seus planos de arborização urbana, de modo a alcançar excelência. “Uma única árvore de grande porta na porta de casa equivale a cinco ar-condicionados ligados”, ilustra.
Desigualdade socioambiental
Aline Cavalari no evento “Verde urbano e clima”, da Cátedra Clima & Sustentabilidade do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), em conjunto com o Grupo de Trabalho COP30 da Prefeitura de SP (Maio/2025). Imagem: Reprodução Youtube IEA/USPA Capital conta com densidade arbórea aproximada de 60%, contudo, para alcançar o padrão 3-30-300, enfrenta um desafio de monta que o inventário pode direcionar a reverter: a desigualdade socioambiental, como reconhece a professora da Unifesp. “Tem uma concentração em um local e pouquíssima cobertura arbórea em outro. A periferia tem menos árvores que as regiões centrais, que os bairros da zona sul, e é importante que possa ser mais arborizada, tenha mais investimento, porque acaba sofrendo mais com as mudanças do clima”, detalha.
Para ela, os desafios são muitos, dentre eles, diante do crescimento urbano desordenado de São Paulo, sem planejamento, encontrar lugar para as árvores nas regiões periféricas. “A gente hoje tem calçadas estreitas em que não há condições de serem plantadas árvores, comércio e garagens muito próximos uns do outros”, observa.
Como alternativa, Cavalari menciona a aprovação em 29 de abril último, na Câmara Municipal de São Paulo, do Projeto de Lei 01-00378/2025, que autoriza a criação do Programa Vagas Verdes, que agora aguarda sanção do Prefeito.
De autoria dos vereadores Marina Bragante (Rede), Renata Falzoni (PSB) e Nabil Bonduki (PT), a proposição prevê a transformação gradual de vagas de estacionamento em canteiros para plantio de árvores na cidade, a partir de definição de locais junto à população. “Isso vai diminuir a ilha de calor no bairro, a poluição dentro da casa das pessoas e inclusive melhorar a saúde mental”, salienta a professora da Unifesp.
Além disso, reconhece, é uma ação alinhada ao planejamento e à política de mobilidade urbana, ao encontro de mudar a lógica de priorização do transporte individual. Para a docente, quando se fala em arborização urbana, a integração entre os órgãos do governo, como nesse caso, é fundamental, bem como o trabalho em parceria com a academia. Envolve também sensibilização da população sobre a importância de se plantar uma árvore onde antes havia uma vaga de estacionamento.
Educação ambiental
Caso não haja essa sensibilização, o risco é de vandalismo, por pessoas que não querem a árvore na frente da sua casa ou do seu comércio – algo que, de acordo com Cavalari, infelizmente não é raro de ocorrer sobretudo com relação a mudas, que demoram a crescer e demandam ainda mais cuidado.
A professora revela, não obstante, que a relação conflituosa com as árvores se deve em especial à ausência histórica de planejamento da arborização em São Paulo. “A gente vê muitas figueiras que não são próprias para uma calçada, cujas raízes a ultrapassam. O cidadão perde sua calçadas e muitas vezes até o encanamento de sua casa, porque a árvore procura água, e o lugar mais permeável é sempre do lado da casa, não do asfalto. É uma reclamação justificável, muitas vezes”, explica. Para fazer frente a isso, ela considera que a conscientização e a educação ambiental desde o ensino infantil são fundamentais.
Assista aqui a entrevista completa com a professora Aline Cavalari.
Fabíola Lago na tenda da Rede Ambiental Butantã durante o Festival Florestar
do Sesc Pinheiros, em comemoração ao Dia Mundial do Meio Ambiente (5/6).
Foto: Acervo pessoalEssa é uma das frentes de atuação da Rede Ambiental Butantã, que reúne 15 coletivos na região. Quem afirma é a jornalista Fabíola Lago, que integra esse movimento. O resultado da educação e conscientização ambiental junto à população local se reverte em vários projetos e iniciativas de reciclagem, plantio, transformação de lixão em modelo de soluções baseadas na natureza (SBN), dentre outros, os quais envolvem a participação de professores e estudantes.
A região do Butantã, segundo Lago, reúne bastante área verde, mas ainda assim convive com um déficit de mais de 3 mil árvores, especialmente por conta dos impactos de eventos climáticos extremos nos últimos anos. “As árvores não são cuidadas como deveriam, quanto à verificação de doenças, podas corretas, plantios adequados. Esses são motivos de muitas quedas, a total falta de monitoramento e o jogo de empurra entre Prefeitura e Enel sobre a responsabilidade dessa manutenção”, critica. Ademais, a região, por sua cobertura vegetal abrangente, assevera a jornalista, tem sido alvo de especulação imobiliária, ao que moradores e ambientalistas têm conseguido resistir.
Árvores senis
No Butantã, como constata Lago, existem muitas espécies senis e de grande porte que a gestão da arborização urbana precisará também lidar, algo comum na Capital. O envelhecimento das árvores, as quais acabam por adoecer e cair, sobretudo em bairros mais antigos da cidade em que o plantio se deu sem qualquer planejamento, é desafio de monta a se fazer frente, na visão de Brazolin.
Este foi um dos problemas que estudo identificou na região da Sé, como informa a professora da Unifesp. “A Prefeitura tem que fazer a inspeção, o monitoramento das árvores, para verificar se não há cavidades (espaços ocos), cupins, fungos, e tomar decisões”, indica o pesquisador do IPT.
Para além da inovação LIDAR que enxerga como o futuro ao planejamento da arborização urbana, ele frisa que outras tecnologias já existentes ajudam nesse trabalho. “São ferramentas auxiliares e necessárias.” Dentre elas, menciona o “tomógrafo e o penetrógrafo, uma furadeira com broca muito fininha que penetra o tronco para ver se o lenho da árvore está sadio. Existe o radar para saber onde estão as raízes, como está sua distribuição e profundidade, mas são equipamentos caros.”
Sistema de alta precisão com uso de tecnologia de Mapeamento Móvel (MMS), scanner a laser LIDAR e inteligência artificial (IA). Foto: Sérgio Barzaghi/SecomA ausência de investimento é um dos gargalos apontados por Cavalari, que ilustra sua importância com a decisão de utilizar a LIDAR para realização do inventário em São Paulo: além de identificar as espécies, o equipamento pode avaliar riscos de queda, por exemplo ao verificar a inclinação da árvore e se a copa está muito desalinhada. “Significa que foi feita poda errada, que é o que a maioria das árvores tem hoje na cidade”, ensina. Ela acrescenta: “Isso vai acender o alerta para o técnico ir lá fazer uma análise com utilização de outros aparelhos.”
Desafio ainda, nesse sentido, é garantir que a poda correta seja feita pela distribuidora de energia nas áreas de sua responsabilidade, para prevenir interferência na fiação. Quando feita de forma irregular, Cavalari reitera que o risco é de desequilíbrio da árvore, que, com as chuvas e ventos fortes, acaba caindo, o que vai gerar queda de eletricidade. A Enel Distribuição foi contatada via assessoria de imprensa, mas até o fechamento desta matéria, não se pronunciou.
“O que observamos é que as empresas terceirizadas, tanto da Prefeitura quanto da Enel e agora da Ecovias, na Rodovia Raposo Tavares, não possuem treinamento qualificado para poda. Isso sem dizer o descumprimento da Lei 10.919/1990, que prevê que os moradores devem ser comunicados com no mínimo dez dias de antecedência sobre a poda e supressão de árvores na sua região”, enfatiza Lago, para quem o principal problema é o respeito à legislação ambiental. O manejo exige capacitação, recomenda a professora, todavia, há apenas dois cursos de especialização em arborização urbana no País, um deles o da Unifesp sob sua coordenação.
Ainda faltam engenheiros
Para Brazolin, o levantamento por modelos matemáticos de risco com inteligência artificial vai ajudar a priorizar ações a problemas centrais. Mas adverte: “Nenhuma tecnologia vai substituir o olhar técnico.” Este é um dos grandes gargalos a se resolver na busca por arborização urbana em linha com os desafios das mudanças climáticas e a garantia de uma cidade menos desigual socioambientalmente, mais saudável, resiliente e sustentável.
A SVMA informa que atualmente 187 engenheiros agrônomos e florestais estão ativos no quadro. No último concurso, com vigência final em 2024, foram nomeados todos os 96 agrônomos e 36 florestais. Um número aquém das necessidades da megalópole, como vem apontando há tempos o SEESP.
Reunião do SEESP com a secretária municipal de Gestão de São Paulo, Marcela Arruda. Ao lado direito dela, Yuri Hilton Alves (Julho/2025). Fotos: DivulgaçãoA rotina desses profissionais, conforme Yuri Hilton Alves, engenheiro agrônomo da Prefeitura e diretor do SEESP, passa justamente pela implantação do Plano Municipal de Arborização Urbana, incluindo o cadastramento e a avaliação das condições fitossanitárias dos indivíduos arbóreos da cidade, ações de plantio em todo o município e outras atividades de planejamento e manejo arbóreo. “Também cabe à SVMA a análise dos pedidos de supressão de indivíduos arbóreos associados a obras e empreendimentos, além da definição das medidas compensatórias necessárias”, acrescenta.
Por outro lado, como considera ele, é impossível falar da rotina da arborização urbana sem mencionar os engenheiros das Subprefeituras, responsáveis pela gestão da arborização de calçadas, canteiros centrais e praças públicas, avaliando a necessidade de podas, remoções e demais manejos de cada indivíduo arbóreo. “Também merece destaque o trabalho dos engenheiros agrônomos e florestais das empresas terceirizadas contratadas pela Prefeitura, que coordenam as equipes operacionais de manejo e executam as podas e supressões autorizadas pelos profissionais efetivos das Subprefeituras.”
O diretor do SEESP é categórico: “Os engenheiros da Prefeitura de São Paulo dão conta e realizam trabalho técnico de qualidade. Entretanto, o aumento constante das demandas, associado ao crescimento da cidade e à intensificação dos eventos climáticos, exige o fortalecimento das equipes técnicas para garantir um serviço com a qualidade e no tempo que o munícipe merece.”
Nesse sentido, Alves propugna a realização de novos concursos públicos para reposição dos aposentados e recomposição dos quadros técnicos. “Cabe lembrar que o último concurso para esses profissionais ocorreu em 2018 e atualmente não existe outro vigente que permita novas convocações.” São, segundo estima, aproximadamente 400 vagas a serem preenchidas na SVMA.
Ele lembra que em maio de 2026 foram encerradas as discussões referentes à revisão geral anual dos servidores junto ao Executivo municipal e, “em protocolo”, ficou definida a realização de mesas setoriais referentes às peculiaridades de cada carreira do município. “Aguardamos, em breve, junto à Secretaria Municipal de Gestão da Prefeitura de São Paulo, reforçar mais uma vez a necessidade e a urgência da realização de concursos públicos para engenheiros, visando o atendimento das diversas demandas da cidade, como a gestão da arborização urbana”, vaticina.
Cavalari observa que “os engenheiros da Prefeitura são excelentes, têm boa vontade, mas estão sobrecarregados”. Contudo, pondera que esse é um problema que se verifica em qualquer órgão público, em todo o País, e nas três esferas de governo. “Em todas as prefeituras tem essa demanda, essa reclamação, que falta pessoal concursado para trabalhar”, constata. “Precisa de mais engenheiros e outros profissionais especializados para garantir a saúde das árvores”, conclui.






