Jéssica Silva
Enquanto se prepara para sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), o Brasil tenta incluir na rotina a descarbonização do meio ambiente para atender meta definida anteriormente, na COP29. A nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do País estipulou a redução de suas emissões líquidas de gases de efeito estufa (GEE) de 59% a 67% em 2035, na comparação com os níveis de 2005.
A meta atualizada em relação ao Acordo de Paris vem no momento em que o mundo apresenta piora nos principais indicadores climáticos, segundo relatório Estado do Clima Global, da Organização Meteorológica Mundial (OMM). O ano de 2024 foi o mais quente de acordo com essa avaliação, com um aumento médio de aproximadamente 1,55°C em relação ao período pré-industrial, enquanto 2023 bateu recorde na concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera, com 151% acima do nível pré-industrial.
O desafio parece impossível, mas não é. Requer a engenharia como aliada, segundo o professor titular do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) Marcos Buckeridge. “Hoje temos uma quantidade enorme de informações científicas e aprendemos como transformá-las cada vez mais rápido em tecnologia. Isso ainda era incipiente nos séculos anteriores e se o mundo se unir em torno da sustentabilidade, talvez sejamos capazes de realizar a proeza de produzir soluções muito rapidamente”, ele afirma.
Marcos Buckeridge, professor titular do IB-USP. Foto: Acervo pessoalA descarbonização do meio ambiente refere-se, conforme explica o professor, à diminuição de gases na atmosfera que contenham átomos de carbono oriundo de combustíveis fósseis, como o CO2 – um dos principais causadores do aquecimento do planeta e da mudança no clima.
No mundo, lista ele, os setores energético, agrícola e de construção civil são os que precisam atuar com urgência, pois estão entre os que mais emitem carbono para a atmosfera. No Brasil, em que a matriz energética já é majoritariamente proveniente de fonte limpa, a maior emissão de CO2 vem das queimadas de florestas.
Em 2023, o País registrou queda de 24% nas emissões por desmatamento na Amazônia, como indica relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (Seeg). No entanto, todos os demais biomas tiveram alta expressiva, marcando o total de emissão de 1,04 bilhão de toneladas de CO2 bruto.
“Temos que deter as queimadas e, mais do que isso, iniciar um programa de regeneração de florestas nunca visto no mundo; isso poderia fazer com que não só atingíssemos os 59%, mas fossemos além. Se juntarmos a isso o desenvolvimento de energias renováveis que temos em andamento e estabelecermos um programa de substituição de materiais oriundos de petróleo consistente e bem financiado, poderemos ir mais longe ainda” defende Buckeridge.
Mudança na indústria
Os processos industriais ficam em quinto lugar no ranking nacional de atividades que mais emitem gases poluentes, segundo relatório do Seeg. Para atuar na mudança desse cenário e ajudar pequenas empresas a adaptarem suas formas de produção foi que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), lançou a Jornada de Descarbonização.
O programa disponibiliza assessoria, consultoria e capacitação profissional gratuitamente para que empresas com faturamento até R$ 8 bilhões possam montar planos e estratégias de redução de emissão de gases poluentes. A jornada, que conta com a atuação de cerca de 4 mil colaboradores das instituições, é estruturada em seis passos, conforme explica Marcello de Souza, gerente de Relações com o Mercado do Senai-SP.
O primeiro é o diagnóstico, realizado por especialistas do Sebrae e Senai que vão até as empresas e avaliam a maturidade do assunto, a familiaridade com indicadores de emissões, financeiros e contábeis. O segundo, a gestão de dados que darão suporte ao monitoramento e mensuração das emissões.
“Finalizada essa etapa, a gente parte para o inventário de gases de efeito estufa, o mapeamento de todas as emissões da empresa, seguindo a metodologia internacional do GHG Protocol, estabelecendo emissões diretas, atreladas ao consumo de energia e ligadas à cadeia de fornecedores”, elucida Souza.
A partir daí, começa o trabalho para reduzir e mitigar as emissões, considerando, inclusive, aspectos de competitividade no mercado. “A descarbonização é uma pauta ambiental, mas quando se reduz consumo e resíduos, estamos falando em maior produtividade também, isso que queremos passar aos empresários”, conta o gerente.
A quinta etapa da jornada é a avaliação de inclusão de novas tecnologias e, para a implementação desta, na fase seguinte, o programa tem parceria com a Desenvolve SP, agência de fomento ligada ao Governo do Estado, para linhas de créditos especiais.
A expectativa, segundo Souza, é que o programa atenda 1.500 empresas do Estado. Atualmente cerca de 600 já estão engajadas em alguma das etapas da jornada. “Nosso objetivo é também preparar a indústria para futuras regulamentações ambientais que já estão sendo debatidas e incluí-la em um novo patamar de competitividade global, que tem como foco essa agenda sustentável”, ele ratifica.
Marcello de Souza (à esquerda) e Paulo Henrique Schoueri. Fotos (na ordem): Camilla Carvalho/Senai-SP e Divulgação FiespNo final de março, o projeto foi apresentado a empresários em atividade no município de Leme. A ideia é que mais exposições como essa sejam realizadas em outras cidades do interior paulista, conforme explana Paulo Henrique Schoueri, diretor titular do Departamento de Desenvolvimento Intersindical da Fiesp.
“Temos Santos e Sorocaba já agendadas, é legal porque as empresas lá representadas podem tirar dúvidas, trocar informações”, conta ele. Em sua análise, a descarbonização da indústria demanda uma legislação consistente. “Você vai ter mais custos para uma produção limpa, e um produto importado ou que não faz nada disso pode entrar no mercado criando uma concorrência desleal. Então o Estado, como agente regulador e fiscalizador, tem que cumprir o seu papel”, defende Schoueri.
Desafio da mobilidade
Os transportes urbanos também são grandes responsáveis pela emissão de GEE, devido ao uso de combustível de origem fóssil. A cidade de São Paulo tem como meta zerar as emissões de CO2 do sistema de transporte público de passageiros em 20 anos, desde a promulgação da Lei Municipal 16.802/2018. Contudo, a transição da frota segue com ritmo inferior ao previsto.
“Em 2019 iniciaram o plano com 18 ônibus da Transwolff e, de lá para cá, tiveram muitas dificuldades de expansão dessa frota. Primero porque não tinha número suficiente de fabricantes, depois, e principalmente, por falta de uma engenharia financeira, porque existiam muitas incertezas entre operadoras e Prefeitura em relação à responsabilidade do financiamento do processo. Um ônibus elétrico custa de três a quatro vezes mais do que um ônibus comum”, analisa Olimpio Alvares, consultor em emissões e transporte sustentável.
O engenheiro é coordenador da Comissão de Meio Ambiente da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) e membro do Comitê Gestor do Programa de Acompanhamento da Substituição de Frotas por Alternativas Mais Limpas (Comfrota) da Prefeitura Municipal de São Paulo. Ele conta que outro ponto que gerou impasse à transição foi a disponibilidade de energia elétrica nas garagens.
O especialista e membro do Comfrota Olimpio Alvares.
Foto: Beatriz Arruda/Acervo SEESP Apesar do compromisso firmado pela Enel no início do programa, há dificuldades em instaurar de fato o sistema necessário ao carregamento dos veículos, com equipamentos e normas de segurança. “Nada disso foi pensado de forma criteriosa e planejada”, critica Alvares. “A Prefeitura tinha previsto inicialmente que estaríamos com 2.600 ônibus elétricos rodando na cidade. Atualmente temos algo perto de 500, mais os 201 trólebus que já existiam no sistema”, diz ele.
Segundo a SPTrans, cada ônibus elétrico reduz, anualmente, a emissão de 87 toneladas de CO2, além de 0,21 tonelada de óxido de nitrogênio (NOx) e 0,002 tonelada de material particulado.
O programa de substituição de combustíveis por alternativas limpas da cidade abrange ainda o serviço de coleta de lixo. Nesse caso, Alvares conta que atualmente são 49 veículos que operam com gás natural veicular (GNV) ou biometano, de uma frota de 500.
Mesmo com as dificuldades, o especialista reconhece o pioneirismo do programa. “É uma mudança de paradigma. A tendência é que as negociações com a Prefeitura e empresas continuem e os problemas sejam resolvidos um a um. É o que esperamos”, pontua, destacando a visão do Comfrota.
Ele avalia ainda que novas tecnologias entrem em debate, como o uso de HVO, um biocombustível sintético alternativo ao diesel oriundo do petróleo. “É como a gente fala na engenharia, estamos percorrendo uma curva de aprendizado”, frisa.
Foto no destaque: Divulgação Volvo