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19/03/2026

Saneamento ambiental para enfrentar a crise climática

CONTEÚDO ESPECIAL

Rita Casaro – Comunicação SEESP

 

Tratamento de esgoto e proteção dos recursos hídricos, assim como coleta, destinação e transformação adequada de resíduos sólidos, são políticas urbanas essenciais para frear o aquecimento global, afirmam dirigentes do SEESP que são profissionais do setor.

Marcellie DessimoniMarcellie Dessimoni: cada garrafinha PET descartada de forma inadequada contribui para a crise climática. Fotos: Rita CasaroUm dos grandes desafios da humanidade hoje, conter o aquecimento global conforme as premissas do Acordo de Paris, encontra-se na berlinda. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), a temperatura média do planeta já aumentou cerca de 1,1 °C. Nesse cenário, a intensificação de eventos extremos, como enchentes, estiagens prolongadas e ondas de calor, tem colocado em evidência a necessidade de repensar a forma como as cidades lidam com infraestrutura ambiental.

 

Para além das metas de redução de desmatamento e transição energética, áreas como saneamento básico, gestão de resíduos e planejamento urbano têm grande relevância nesse desafio e devem ter a atenção devida, como atestam profissionais que atuam diretamente nesses setores.

 

“Muitas pessoas acreditam que resíduos não têm nada a ver com a crise climática, mas não é verdade. Cada lixo despejado de forma incorreta contribui para o aumento dos gases de efeito estufa”, afirma a engenheira ambiental e sanitarista Marcellie Dessimoni Giratola, vice-presidente do SEESP.

 

Ela explica que a decomposição de resíduos orgânicos em aterros e lixões gera metano, um gás com grande impacto no aquecimento global. “É cerca de 80 vezes mais potente que o CO₂. E quando os resíduos vão para aterros sem tratamento adequado, esse gás é liberado continuamente na atmosfera”, explica.

 

Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicam que o metano responde por cerca de 25% do aquecimento global observado desde a Revolução Industrial. Conforme a instituição, cumprir a meta do Acordo de Paris, limitando a elevação da temperatura a
1,5 ºC, exige reduzir a emissão do poluente em 30% até 2030.

Nesse contexto, alerta Dessimoni: “Quando descartamos incorretamente uma garrafinha PET, estamos contribuindo para as mudanças climáticas.” Por outro lado, a gestão correta de resíduos abre oportunidades ambientais e econômicas, como o orgânico, que pode ir para compostagem ou biodigestores, e a reciclagem e a logística reversa como soluções para devolver o material para a indústria.

 

Lixo que vira energia

Com larga experiência no setor, a engenheira civil Silvana Guarnieri, diretora do SEESP e especialista em gestão de resíduos sólidos, reforça essa ideia e aponta a necessidade de avanços para reduzir os resíduos nos aterros e lixões, tirando o melhor proveito desse material.

 

Silvana GuarnieriSilvana Guarnieri defende transformar resíduos não recicláveis em energia elétrica, solução tecnológica para reduzir pressão sobre aterros. “Quando a gente tem um aterro sanitário, consegue tirar o gás e fazer uma transformação [para combustível que pode ser usado no caminhão de transporte de lixo], a exemplo do que é feito na cidade de Mauá”, cita.

 

Para ela, essa também seria a destinação ideal para o que não é reciclável por falta de mercado. “Esse material é riquíssimo em potencial energético. Se fosse para um sistema de queima com produção de energia elétrica, como acontece no Japão, nos Estados Unidos e na Europa, teríamos isso aqui também. Há 30, 40 anos não se falava nisso porque não tinha tecnologia que mantivesse a queima em 1200°, ficava em 600° e 700°, gerando gases cancerígenos, mas hoje já conseguiria sair desse patamar”, explica.

 

Os números sustentam a preocupação da engenheira. Conforme o Panorama Brasil 2025, divulgado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema) no final do ano passado, em 2024, foram geradas 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU) no País. Do total, foram coletadas 76,4 milhões de toneladas e dada destinação correta a 41,4 milhões de toneladas. Apenas 7,1 milhões de toneladas de resíduos secos foram enviados à reciclagem.

 

Saneamento e proteção dos mananciais

Também na seara do saneamento, há outro eixo de planejamento de ação decisivo nessa batalha. Fátima Blockwitz, engenheira da Sabesp e presidente da Subsede do SEESP em Sorocaba, explica que o tratamento de esgoto é fundamental para proteger os mananciais, evitando que esses recebam efluentes contaminados.

 

Nesse item, reside desafio imenso para o País, que ainda tem cerca de 45% de sua população sem acesso a coleta de esgoto e trata aproximadamente metade do que é gerado, conforme o Instituto Trata Brasil.

 

A expectativa, aponta Blockwitz, é que as regras previstas no Marco Legal do Saneamento – que determina a universalização dos serviços de abastecimento de água e de coleta e tratamento de esgoto até 2033 – façam avançar esse quadro, apesar da privatização de muitas companhias do setor, inclusive a que opera no Estado de São Paulo em que ela atua. “A empresa privada quer lucro e não existe lucro no saneamento, muito menos no tratamento de esgoto, que é a parte mais cara”, pontua.

 

Coordenadora da Câmara de Planejamento do Comitê de Bacia do Alto Paranapanema, Blockwitz ressalta que a preservação da vegetação nas áreas de captação é igualmente importante. “A gente não cuida da nossa matéria-prima, dos mananciais, da mata ciliar.”

 

Outro ponto de preocupação é a exploração indiscriminada de águas subterrâneas. “Está aumentando muito a perfuração de poços. Muitos são clandestinos e podem contaminar o aquífero”, adverte.

 

Ela também chama atenção para a utilização irracional. “A gente usa água tratada para tudo, inclusive para o banheiro e para limpeza. Isso é um desperdício absurdo.”

 

Na sua concepção, ainda, enquanto o aproveitamento da água da chuva poderia reduzir a pressão sobre os sistemas de abastecimento, é preciso ter atenção à impermeabilização das cidades que agrava problemas de drenagem, ocasionando alagamentos.

 

“A gente impermeabilizou tudo. A água tem que infiltrar.” Na sua avaliação, uma saída é o conceito de “cidades esponja”, adotado em alguns países para aumentar a capacidade de infiltração da água e reduzir enchentes.

 

Engenharia e decisões estratégicas

Fatima BlockwitzFatima Blockwitz: é preciso tratar o esgoto, preservar mananciais e reverter impermeabilização das cidades. Apesar da relevância técnica dessas áreas, as três engenheiras avaliam que a profissão nem sempre ocupa o centro das decisões, havendo espaço, portanto, para conquistar mais protagonismo.

 

Blockwitz lamenta: “A engenharia poderia mudar muita coisa, mas os profissionais são preteridos em muitas situações. É o dinheiro que manda, e as pessoas não pensam no futuro.” 

 

Consultora ambiental e em ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança), Dessimoni observa que muitas empresas ainda recorrem a esse tipo de serviço apenas para atender exigências legais ou obter certificações. O correto, afirma, seria que o conhecimento técnico estivesse integrado ao processo produtivo desde o início.

 

Além disso, ela vê inversão de prioridades em muitos empreendimentos em que os responsáveis recorrem ao engenheiro ambiental apenas quando surge algum obstáculo, já com o trabalho em andamento. “O caminho deveria ser o inverso: primeiro fazer um mapeamento, entender quais são os principais impactos e, a partir desse diagnóstico, fazer o projeto adequado”, defende.

 

Para Guarnieri, que foi vice-prefeita do município de Diadema e atuou em políticas públicas no setor especialmente no Grande ABC, é preciso mais engenharia no planejamento urbano estratégico, com a devida prioridade às questões ambientais. “Não é só água e esgoto. Tem resíduo, drenagem, áreas verdes. É preciso alguém pensando de forma articulada”, ressalta.

 

Para as três engenheiras, portanto, enfrentar a crise climática exige planejamento de longo prazo e maior protagonismo técnico nas decisões. “Hoje não é mais combater. É adaptar e mitigar. E a engenharia participa desse processo do início ao fim”, arremata Dessimoni.

 

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